Você está aqui: Home › Livros
Livros

Palavra da Presidente da Associação Janusz Korczak
do Brasil – Anita Novinsky na despedida de sua gestão

Quero expressar minha satisfação em encontrar os amigos que fazem parte da Associação Janusz Korczak e dizer-lhes algumas palavras neste fim de minha gestão.

Fazer parte ativa desta sociedade e ter contribuído, por pouco que tenha sido, para o melhor entendimento da criança, foi extremamente gratificante para mim.

Tenho que dizer que nossos sonhos nunca se realizam integralmente, e quando se realizam  em parte, também nunca são como nós os imaginávamos.

Todos vocês receberam nosso Boletim, onde vem registrado o que fizemos nestes dois últimos anos. A alma desta sociedade continua sendo, como sempre, a nossa amiga Rachel Gevertz. À sua dedicação e aos seus esforços devemos muito de que foi feito.

Sobre minha experiência pessoal, eu queria dizer a vocês, que tive a oportunidade de encontrar, há três meses atrás, o Presidente da Associação Janusz Korczak de Israel,  senhor Benjamin Anolik. Ouvi dele sobre o programa que a Associação em Israel realiza, e com quanto amor faz seu trabalho, num kibutz perto  de Haifa. Nesse kibutz, que infelizmente não tive tempo de visitar, existe um Museu da Criança, e segundo me contaram, é o único no mundo no gênero. Estive também em julho passado em  Varsóvia e conheci o presidente da Associação Janusz Korczak da Polônia. Fiquei realmente  impressionada com a programação que o grupo realiza. Todos os anos fazem no mínimo dois seminários, do qual participam os mais ilustres pedagogos e psicólogos e onde se debatem questões cruciais em relação à criança. Na Polônia existem várias escolas com o nome de Korczak e recebi a sugestão de seguirmos no Brasil esse exemplo. No momento, a Associação da Polônia está empenhada em construir um monumento em memória de Korczak e também um Centro de Estudos Korczakianos.

No ano passado tivemos o prazer de receber em São Paulo o Presidente da Associação Janusz Korczak da Holanda, Theo Cappon e sua esposa Julia, que nos contaram sobre o programa que realizam, onde todos os membros participantes oferecem seu trabalho voluntário sem nenhuma remuneração.

Eu quero também mencionar que recebi um convite para particular, de um Seminário Internacional na Universidade de Londres, que se realizará em Junho de 2001 sob o título: Seminário International sobre as Idéias Educacionais Inovadoras de Metodologia de Janusz Korczak. Ocorrerá no Instituto de Educação da Universidade de Londres. Podemos constatar quanto Janusz Korczak continua atual.

Uma das questões que constam nesse convite é a seguinte: Por que Korczak? Por que Agora?

Todos sabemos que Korczak inovou a educação da criança e rejeitou qualquer forma de punição corporal. Usou drama e arte para alcançar seus objetivos na educação. Suas idéias sobre educação merecem ser conhecidas e analisadas por causa de sua relevância, nesta complexa sociedade do século XXI, na qual crianças ainda são espancadas e feridas. Essas questões estão no coração da educação de hoje.

“Korczak inovou a educação da criança e rejeitou qualquer forma de punição corporal. Usou drama e arte para alcançar  seus objetivos na educação. Suas idéias sobre educação merecem ser conhecidas e analisadas por  causa de sua relevância”

Num Boletim recente que recebi da Holanda constam as atividades que a Associação J.K. realiza nesse país. Entre elas foi traduzida para o holandês a obra A Voice for the Child – Uma voz da Criança, e o livro As palavras inspiradoras de J.K., que acabou de ser publicada, e mereceria também ser traduzido para  o português.

É interessante lembrar que a participação na Associação Janusz Korczak pode ser direta e indireta. Um exemplo das atividades diretas: todo ano em conjunto com a Associação Janusz Korczak Russa, organizam-se Campos de férias para crianças paraplégicas e não-paraplégicas da Rússia, Holanda e Ucrânia. Crianças de diferentes países se encontram e fazem parte dessas colônias de férias, onde são aplicadas as idéias de J.K. (Crianças participam e dirigem os programas). Um exemplo das atividades indiretas: os diversos Centros  J.K. convidam membros das diversas Associações J.K. para organizar Seminários, Workshops, Encontros, etc... Conhecendo as idéias de Korczak esses Centros vão procurar ampliar suas próprias idéias e assim  inovar seus programas.

Apesar das Associações Janusz Korczak terem ainda pouca influência no mundo,  tem aumentado o interesse em se fazer uma Aliança das Associações J.K. com organizações não-governamentais.

Na Holanda, a Associação Janusz Korczak já está associada à “Ação Contra a Violência” (pública e na família). Também participa do programa mundial “Defesa Internacional da Criança” que defende os direitos da criança e foi fundada em 1982 em Genebra.

Eu queria discorrer rapidamente sobre alguns itens que foram publicados em um importante texto denominado: Primeiros Passos para uma Política da Infância para a Europa do século XXI. São os seguintes:

1º. Crianças têm o direito de viver sem preconceito, exclusão

      e discriminação.

2º.Crianças têm o direito de serem ouvidas nas Instituições

     Européias, inclusive no Parlamento Europeu, no

    Conselho de Ministros e no Conselho da Europa.

3º. Crianças têm o direito de serem reconhecidas como

      cidadãs da União Européia, com uma afirmação de seus

      direitos fundamentais, incluídos no Tratado da União

      Européia.

4º. Crianças têm o direito às suas necessidades e interesses

     aos quais as autoridades locais, regionais e nacionais e as

     instituições européias e internacionais devem dar

     prioridade.

5º. A União Européia e seus estados membros dela têm a

     “obrigação” de criar uma legislação que reflita

     plenamente, e implemente os princípios contidos na

     “Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da

     Criança”.

6º. Políticos, partidos políticos e grupos políticos “têm o

     dever” de dar prioridade ao direito das crianças, nos seus

     manifestos e nos seus programas.

7º. As associações não governamentais e outros corpos “têm

     o dever” de desenvolver um trabalho participatório com a

     criança.

Nestas breves linhas está concentrado o espírito de  Janusz Korczak e eu espero,  que suas sementes possam dar belos frutos no futuro.

Eu quero ainda me despedir dos amigos da  Associação e agradecer a valiosa colaboração de todos e desejar à futura Diretoria, um trabalho belo e fecundo.

Janusz Korczak – um olhar

Tatiana Belinky

A Janusz Korczak podem-se aplicar palavras sonoras, epítetos que normalmente teríamos até pudor de usar em relação a outras pessoas. Palavras como herói, santo, mártir, e também como Don Quixote, sonhador, idealista. Mas a palavra que a meu ver melhor se aplica a este homem que faz honra ao gênero humano, é a palavra Justo. Korczak foi um Justo no sentido da lenda tradicional judaica, dos 36 Justos que sustentam o mundo  - sempre devem existir na terra 36 homens sem jaça, de perfeição moral e espiritual tão completa, a ponto de eles mesmos não saberem que só por causa deles o mundo pôde continuar a existir. E Janusz Korczak – ou Henrik Goldszmit, seu nome verdadeiro certamente foi um desses justos, como mostra toda a sua vida. Vida  luminosa, mais do que exemplar, porque não se pode esperar nem pedir isto a ninguém. Vida que deveria ser conhecida por todas as crianças, e todo os adultos do mundo: as crianças que foram o fulcro, o centro, a razão de ser dessa vida ímpar.

Uma vida que começou em 22 de julho de 1878, quando nasceu, em Varsóvia, ainda sob o domínio czarista, o menino Henryk, que viria a ser o grande amigo da infância, educador, médico e escritor Janusz Korczak, Ele nasceu numa família judia, da inteligência polonesa-burguesa progressista. O pai, advogado bem sucedido, era um desses judeus quase assimilados – quase, porque, embora não praticasse o judaísmo, também não o repudiava, como certos outros e pôde dar ao filho uma educação esmerada. Mas aos dezessete anos, com o pai doente, internado irrecuperável  em hospital psiquiátrico, sua vida sofre uma grande reviravolta, quando ele conheceu a necessidade e tornou-se o único arrimo de sua mão e irmã.

Stanislas Tomkievicz, um sobrevivente do gueto de Varsóvia e do campo de concentração de Bergen-Belsen (que desde 1945 se dedica, na França, como médico-psiquiatra, às crianças e adolescentes desajustados), tem muito a dizer sobre Janusz Korczak.

“Minha vida foi difícil, mas interessante. Uma vida assim pedi a Deus na juventude.Rezei nas profundezas da minha alma: Deus, dá-me uma vida difícil, mas de belos e elevados propósitos.”

“Sua dupla origem judaico-polonesa, a infância rica e a juventude pobre, e seu medo da loucura hereditária, parecem Ter moldado a personalidade sutil desse homem, amigo de todas as crianças e principalmente das órfãs... o receio da loucura hereditária fez como que ele nunca se casasse e não tivesse filhos próprios: seus únicos filhos foram os dos outros, se único amor, a infância, a pobreza e seu orfanato”.

Graças à aulas particulares que ministrava, ele conseguiu entrar na faculdade, estudar e formar-se em medicina. Mas, como ele mesmo diria mais tarde, a exemplo do seu escritor predileto,  Anton Chekhov, que era médico como ele, também ele “traiu” a medicina para  se dedicar à literatura e ao trabalho educacional prático em dois orfanatos: um para crianças judias, na famosa rua  Krochmalna, e outro para órfãos poloneses, no distrito Bielany de Varsóvia uma separação que não era certamente da sua escolha, mas devida à organização social da Polônia, na época.

Entretanto, antes da fundação do orfanato da rua Krochmalna, Janusz Korczak chegou a trabalhar sete anos num hospital infantil. “O hospital me mostrou a dignidade, a maturidade e a atitude razoável das crianças perante a morte”, disse ele. E depois, tirando os quatro anos da Primeira Grande Guerra, Henryk trabalhou e viveu 25 anos no orfanato da rua Krochmalna.

Contra o escritor polonês Igor Neverly: “No mais alto da casa, no sótão, ficava a moradia de Korczak. Um canto isolado e sossegado, com uma grande janela bem  no alto, dando sobre a copa de um castanheiro. Um aposento agradável com uma atmosfera de meditação, mas não a cela de um eremita. Mesmo porque  sempre havia alguém ali junto dele, uma criança, às vezes duas, convalescendo de uma doença ou se recuperando de uma experiência traumática, escondendo-se do barulho e da agitação do grupo, procurando paz e silêncio lá em cima, no “bom doutor”, como o chamavam as crianças”.

Korczak sempre foi participante.

Durante os anos de faculdade, fez amizade com os jovens das ruas mais populares de Varsóvia; ele sempre foi e se sentiu um representante da tendência progressista da cultura polonesa. Mas o seu interesse por crianças surgiu cedo: desde 1900 ele participou da organização das primeiras colônias de férias para as crianças das famílias operárias uma novidade até revolucionária  para a época. Após especializar-se pediatria nos hospitais de Berlim e Paris, Korczak tornou-se rapidamente um pediatra  renomado, com boa clientela particular, mas logo começou a dedicar cada vez mais tempo ao hospital, ao seu trabalho de escritor e aos problemas de educação e das crianças carentes.

E conta Tomkievicz, que em 1905, recém diplomado, Korczak, participando como médico militar das tropas russas na  guerra russo-japonesa tomou contato com os primeiros soviéticos – conselhos de soldados, na época da sufocada revolução de 1905. Durante as assembléias em que se discutia a libertação do homem e do operário, Korczak tomou a palavra para reinvindicar a libertação da criança, sem a qual a humanidade não teria sentido.

Em 1910, ele exerceu várias vezes a função de educador em colônias de férias, experiência da qual resultaram dois breves romances sobre o assunto de crianças numa liberdade que não tinham durante o ano letivo. Pouco depois, Korczak atingia o objetivo que norteava a sua vida: a construção de um orfanato  segundo padrões tanto arquitetônicos como pedagógicos, e tornou-se seu diretor, médico e professor principal. Desde então, sua existência estaria ligada, até a sua morte trágica, a essa casa de órfãos. (Ele só foi obrigado a separar-se dela entre 1914 e 1918, durante a Primeira Grande Guerra). Depois de 1920 fez apenas viagens curtas, duas das quais à Israel e Palestina, em 1934 e 1935

No seu orfanato, introduziu um sistema muito especial, coisa nunca vista até então: a auto-gestão das crianças e a arbitragem inter-pares, entre colegas. Direitos iguais para crianças e adultos: suas responsabilidades e obrigações variavam, mas o código era obrigatório para todos. No seu orfanato, Korczak criou um mundo justo e nobre, um mundo no qual cada criança tinha direito ao respeito e ao desenvolvimento da sua personalidade. Hoje se fala muito do respeito devido à criança, dos direitos humanos da criança, etc... e tal. Fala-se muito e se faz pouco, como demonstrou o recente “Ano Internacional da Criança” que praticamente passou em branca nuvem. Mas Janusz Korczak, já naquele tempo, fazia o que pregava. O seu sistema pedagógico, que foi realizado na prática e formulado em muitos dos seus trabalhos teóricos, artigos, transmissões pelo rádio, ensaios e obras literárias, era algo tão novo e extraordinário num mundo de segregação e discriminação social e racial, num mundo de miséria e ódio, de agressiva intolerância dos saciados e os protestos dos famintos e destituídos, que somente um enorme poder das idéias e do amor de Korczak tornou possível realizá-lo pois criou um parlamento eleito, um órgão de auto-estão também eleito (eleições diretas), um diário mural e um jornal ambos dirigidos só por crianças.

O Tribunal, igualmente eleito e composto de crianças, julgava as disputas, os delitos e também as boas ações dos internos e dos membros do grupo educativo, inclusive o Diretor. Funcionava segundo um código próprio, mistura de humor, sensibilidade e bondade, e justiça compreensão e perdão. Mas não pena, dó, piedade um sentimento que ele considerava hipócrita e nocivo. Queria um repartir de sentimentos, aceitação e coexistência, em vez da humilhante piedade.

Janusz Korczak escreveu muito, deixou uma obra extensa. Escreveu para crianças e adultos, e também livros que, aparentemente “infantis”, dirigiam-se talvez mais aos adultos do que às crianças. Como por exemplo, “Quando eu voltar a ser criança” (editado pela Summuns). Os livros de Korczal. Para crianças e sobre crianças, são belos e sábios, porque o mundo neles criado não é visto por um prisma de didatismo simplório, mas através do prisma do amor e da compreensão, através da sua utopia, do seu “sonho impossível”.

Mas o sonho chegou ao princípio do seu fim com a ascensão do nazismo na Alemanha, com o qual começou a degradação da situação dos judeus na Polônia. Korczak reaproximou-se então do judaísmo, e até com um certo misticismo, como se percebe de um texto que foi encontrado entre os seus escritos, depois da sua morte: “Minha vida foi difícil, mas interessante. Uma vida assim pedia Deus na juventude. Rezei nas profundezas da minha alma:  Deus, dá-me uma vida difícil, mas de belos e elevados propósitos.”

A vida inteira de Janusz Korczak foi uma luta em favor da criança, em defesa dos seus interesses humanos, do respeito que lhe +e devido em casa, na escola, na rua, no orfanato, ou seja lá onde for.

Janusz Korczak foi um batalhador pela causa que escolheu, grande e justa causa que exigiu dele estudos e pesquisas de cientista, criatividade de poeta, combatividade de jornalista e coragem de inovador. Mas que principalmente exigiu dele o que mais ele tinha para dar: amor, um amor sem limites por todas as crianças, mas em especial pelas crianças desamparadas. Um amor que ele vivenciou até as últimas conseqüências,como um justo, como um santo. Porque Janusz Korczak, que teve oportunidade de ser retirado do gueto de Varsóvia, onde fora confinado com as duzentas crianças do seu orfanato, por ser judeu, recusou a salvação e preferiu ser arrastado ao famigerado campo de concentração de Treblinka, para morrer assassinado pelos nazistas, junto com as crianças que não quis abandonar, no dia 5 de agosto de 1942, aos 64 anos de idade.

Lista cronológica de livros de Janusz Korczak

1898 – Por qual caminho?

1901 – As crianças da rua

1905 – Recomeçando sempre (sátiras sociais)

1906 – A criança do salão (romance)

1910 – Maski, Joski, Srule

1911 – Joski, Jazki e Frank

1913 – A Glória

1914 – Bebê (narração da 1ª. Infância)

            Confissões de uma borboleta

            Uma semana nefasta

1919 – Como amar uma criança (1ª parte: A criança na sua família)

            Momentos educativos

1920 – Como amar uma criança (edição completa)

1921 – Do Jornal Escolar

1922 – Só  com Deus – orações daqueles que não oram

1923 – Rei Mateusinho I

            Rei Mateusinho numa ilha deserta

1924 – A falência do pequeno Jack (romance realista)

1925 – Quando eu voltar a ser criança

1926 – Vergonhosamente breve

1929 – O direito da criança ao respeito

1930 – As regras da vida (pedagogia)

1931 – O Senado dos loucos (teatro)

1935 – Katyus, o feiticeiro (romance fantástico)

1938 – Os homens são bons

            Um rapaz teimoso (vida de Pasteur)

            Reflexões (artigos)

1939 – As Três Expedições do Pequeno Herscz

1942 – Diário do Gueto

Há em tradução para língua portuguesa, no momento, cindo livros de Korczak e dois preparados pela AJKB:

-“Quando eu voltar a ser criança”, Summus Editorial Ltda,

-“Como amar uma criança”, Editora Paz e Terra,

-“O direito da criança ao respeito”, Editora Perspectiva,

-“Diário do Gueto”, Editora Perspectiva e três sobre Korczak:

-“Janusz Korczak – Coletânea de Pensamentos” de Bem Abraham

-“Janusz Korczak: Perfil, Lições, O Bom Doutor”, dos autores Lewwick, Singer e Murahovschi, organização de Rachel Gevertz, Editora da Universidade de São Paulo – EDUSP, 1998

Originalidade de Janusz Korczak

José Augusto Dias

O primeiro contacto com a obra literária de Korczak pode trazer para o leitor desavisado algumas experiências desconcertantes. Vejamos um exemplo:

“Um amor materno verdadeiramente caloroso, sábio e equilibrado deve dar à criança o direito de morrer prematuramente, de parar o curso de sua vida na sua primeira ou terceira primavera, não esperando que a Terra complete sua sexagésima volta ao redor do sol.”

Korczak, com sua fraqueza característica, está, neste caso, rebelando-se contra o amor sufocante, aquele que, pelo receio da perda de um filho, não o deixa viver, cercando-o de cuidados tão excessivos, que ele cresce como um ser incapaz de bastar-se a si mesmo. Assim é Korczak: seu pensamento vigoroso não conhece limites, quando se trata de defender a criança contra o egoísmo e a prepotência dos adultos.
Não hesita também em negar o valor das teorias, quando estas falham em dar explicações compatíveis com suas intuições geniais. Navega “contra a corrente”, na expressão de Tomikiewicz. Por tudo isso, forçoso é reconhecer que Korczak é um pensador original.

Vivendo em uma época terrivelmente turbulenta e brutalmente desumana, tendo sob sua guarda algumas centenas de crianças frágeis e desvalidas, sob a ameaça da fome, do desconforto, da doença e, o que é ainda pior, da injustiça, pôs em vigor toda sua criatividade para a construção de um ambiente sadio, em que elas pudessem preparar-se para o desafio do futuro.

No Orfanato da rua Krochmalna, em Varsórvia, e posteriormente no Gueto, convivia diariamente  com crianças de carne e osso e não com abstrações livrescas – crianças que tinham fome de pão e de carinho, que sabiam sorrir, mas que também choravam, que muitas vezes obedeciam, mas que também se rebelavam, que furtavam, que mentiam, que odiavam  Korczak sabia compreendê-las como ninguém. Dizia coisas assim:

“Nossas teorias educativas não nos explicam suficientemente que, além do amor à verdade, devemos ensinar a criança a reconhecer a mentira; que além da arte de amar, de respeitar, de obedecer, é necessário conhecer a arte de odiar, de desprezar, de se indignar, de se revoltar”.

Ou ainda:

E não se esqueça nunca:

A criança tem e não tem o direito de mentir, de roubar, tirar o que bem quiser,

Se, durante sua infância, nunca teve a ocasião de tirar algumas passas ou comer escondido um pedaço de bolo, ele nunca será um homem honesto.”

“Assim com Piaget construiu uma maravilhosa teoria da evolução cognitiva da criança, Korczak escreveu poemas sobre as crianças”

Capaz de amar com a mesma intensidade, tanto a criança graciosa e gentil, quanto a feia, rebelde e má, Korczak esforçou-se por criar os instrumentos que lhe permitissem levar adiante sua empreitada da educação: o Código, o Parlamento, o Tribunal, o Jornal, a Caixa de Cartas. Instituiu, enfim, toda uma prática de educação, sem a menor preocupação de dar-lhe uma estrutura teórica. Na verdade, tinha certa aversão pela teoria e desconfiava dos pedagogos.....

A teoria porventura subjacente no trabalho de Korczak está ainda à espera de que alguém se dedique a estabelecer seus contornos e sua sistematização. Alguma coisa já tem sido feita. Halina Semenovwicz, professora do Instituto de Estudos Pedagógicos de Varsórvia, por exemplo, tem uma contribuição bastante útil. De início, diz ela;

“Ao analisar a concepção pedagógica de Korczak, é preciso, segundo Alexander Lewin, um dos melhores conhecedores de sua obra, conceber o nascimento de suas idéias inovadoras em uma luta dramática com o mundo a seu redor.”

Após este reconhecimento de que o trabalho de Korczak tem que ser entendido no contexto histórico-social em que se desenvolveu, diz o seguinte:

“A partir de seus experiências críticas desenvolveu uma reflexão original.

Pode-se constatar sem o menor exagero que Janusz Korczak criou teoricamente e demonstrou na prática um sistema moderno de proteção da criança, uma concepção nova, liberada das humilhantes tradições da filantropia”.

E, finalmente, faz a seguinte sistematização do trabalho de Korczak:

“O processo educativo usado nas casas de órfãos baseava-se nos princípios seguintes:

-Substituir a opressão por uma adaptação voluntária e consciente do indivíduo às formas de vida coletiva.

-Conduzir gradualmente a criança à independência, criando as situações que estimulam sua iniciativa.

-Basear a organização interna do estabelecimento em um acordo de que participam as duas partes: crianças e adultos.

A realização desses princípios pressupunha:

1.Auto-gestão das crianças

2.Educação pelo trabalho

3.Adoção consciente das normas estabelecidas para a vida em comum.

4.Domínio de si conquistado gradualmente.

5.Um sistema original de recompensa e punições, estabelecido e gerido pelas crianças.

6.Numerosas formas de atividades educativas e recreativas, adaptadas às necessidades e aos desejos das crianças”.

Este é um bom começo, mas não mais que isto: apenas um começo. Muito mais precisa ser feito no sentido de estruturar a obra e o pensamento de Korczak, de forma a tornar mais fundamentada sua propagação.

Outro autor que tem muito a dizer é Tomkiewicz, que conheceu Korczak pessoalmente. Tomkiewicz destacou a originalidade de Korczak nos seguintes termos:

“Quais são as contribuições originais de Korczak? Quando se pode falar de sua função de pioneiro, ou melhor, de seu papel de autor contra-a-corrente?

Sua primeira idéia bastante original é a de que a infância não é um período, mas um estado. Neste ponto ele se inscreve de imediato contra a corrente de psicologia qualificada de genética, não +e certamente um adulto em miniatura, mas +e um adulto em devir. Ora, Korczak reverteu o problema, ao dizer que atualmente um terço da humanidade é constituído de crianças e que, ao invés de considerá-las como seres imaturos, seria mais normal e mais justo considerá-los como uma minoria oprimida.(...)

Korczak foi também contra a corrente, quando rompeu com a pedagogia autoritária da época.(...)

Em  sua prática e em sua teoria, Korczak rompeu com a pedagogia fundada sobre uma suposta superioridade do adulto em relação à criança, fundada sobre o fato de que o adulto pode mandar e a criança tem que obedecer. Ao contrário, ele falou do direito da criança à desobediência.”

Todos estes depoimentos são preciosos e constituem contribuição importante para a busca dos fundamentos do pensamento e da ação de Korczak Contudo, continua em aberto o trabalho de constituir uma teoria korczakiana de educação.

Qualquer que seja o caminho escolhido para esta nobre tarefa, jamais deve ser esquecida a advertência e Alexander Lewin, conforme citada por Halina Semenowicz, de que é preciso ter presente “sua luta dramática com o mundo a seu redor”. Neste sentido, seria até certo ponto ingênuo pretender aplicar as idéias e os métodos de Korczak a uma realidade diferente daquele em ele viveu e atuou. Seria até mesmo  uma afronta à inteligência do ilustre educador. Assim como soube engendrar os instrumentos adequados para aquele momento e aquele lugar, se tivesse que enfrentar, por exemplo o desafio de amparar as crianças desvalidas do Brasil de hoje, ele certamente iria imaginar novos recursos, mais apropriados a estas novas circunstâncias. Uma coisa só restaria inalterada: sua firma determinação de defender a criança contra as injustiças do mundo.

Não estará aí, afinal, o lado substantivo da obra de Korczak? Talves mais importante do que aplicar as idéias de Korczak seja cultivar o modo de ser e de sentir de Korczak.

Que diriam as crianças do Orfanato, se lhes fosse apresentado alguém encarregado de substituir Korczak na aplicação de seu métodos? Que eram os métodos, sem Korczak?

Ainda que não se possa negar seu valor, pois afinal ajudaram a moldar as vidas de centenas, de milhares de crianças, durante muitos anos, os métodos korczakianos são produto de algo muito superior a eles: a personalidade de seu autor.

A rica personalidade de Janusz Korczak encantou a todos quantos tiveram a felicidade de conhecê-lo, deixando para segundo plano a preocupação com a teoria e a metodologia. Ouçamos o depoimento de Tomkiewicz, que após revelar que em sua infância conheceu Korczak, afirma:

“Para Korczak, não há teoria sem prática, nem prática sem a criança concreta, a sorte de uma só criancinha pobre era para ele tão importante quanto toda a pedagogia em geral. Ele emite, é certo,  teorias hipóteses e deduções, mas seus artigos, longe de ser o fruto de uma reflexão abstrata, transmitem sempre sua prática e seu modo de ser(...) Ele escreve como Esopo escrevia suas fábulas, como Nietzsche escrevia suas meditações, como Marco-Aurélio escrevia seus Pensamentos.”

Neste trecho de Tomkiewicz aparece com maior relevo, não o teórico, mas o sensível e refinado escritor, um artista que, mesmo quando escrevia em prosa, deixava transparecer uma poesia contagiante. Na mesma página em que está o trecho acima, Tomkiewicz registrou também: “Assim como Piaget construiu  uma maravilhosa teoria da evolução cognitiva da criança, Korczak escreveu poemas sobre as crianças”.

É também particularmente precioso o depoimento de Lena Pougatsch-Zalcman, aluna e posteriormente “colega” de Korczak (As aspas são dela mesma, certamente corandode emoção ao render-se às instâncias do mestre para que se atribuísse a categoria de sua colega). Lena conta sobre a participação de Korczak em uma reunião de estudos em uma escola normal. Fala do alvoroço das estudantes com a chegada do conferencista famosos e acrescenta:

“Ainda que pouco loquaz, de uma postura antes reservada, detestando as modalidades e os elogios, Korczak chegava, estritamente pontual, com seus grossos sapatos seu velho chapéu discretamente elegante, e começava sua exposição. O assunto era sempre o mesmo: a criança, como chegar até a criança, o respeito pela criança....

E eis seu auditório fascinado. Pois não se tratava absolutamente de um curso teórico, ainda menos de alguma aula magistral carregada de princípios e de dogmas. Não, era totalmente outra coisa: uma colóquio cálido e cativante, em que psicologia, pedagogia e pediatria se entrelaçavam para tornar-se poesia, música.”

Este era Janusz Korczak: não o teórico frio e distante, mas o homem capaz de viver e de morrer pelas suas crianças, um novo Midas, que tudo quanto tocava se transformava em poesia.

Algumas notas pedagógicas/educacionais sobre a Escola democrática

Helena Singer

Modelo dominante X Modelo de Korczak

Objetivo                   Perpetuar a               Transformar a

                                 sociedade                 sociedade

Adulto Ideal             Eficiente                   Responsável

Definição                  Instrumento de         Centro de

de escola                    moralização             produção de

                                                                   conhecimento

Dispositivo                Disciplina                Participação

Educador                    Autoridade              Orientador

Abalos no Modelo Dominante

.Resistência dos jovens ao modelo escolar: 2,5% dos estudantes do Japão; mais de 1/3 dos estudantes de Detroit, números crescentes em Idaho, Tennessee e Alabama (EUA) e na Inglaterra estão se recusando a freqüentar a escola

.Desatualização dos conteúdos escolares para o mercado de trabalho e as novas questões sociais

.Esvaziamento do papel do professor de transmissor de conhecimento

.Desvalorização social da escola: mercado de diplomas e instituição de controle dos adolescentes em risco

.Homeschooling: 1.500.000 crianças nos EUA; associações na França, na Grã-Bretanha, na Rússia e no Japão

.Ferramentas para o auto-didatismo: comunidades de aprendizado; grupos virtuais de discussão; ensino virtual

A Escola que conhecemos:           Diretoria

                                                   Coordenações

                                                       Corpo docente

                                                        Corpo discente

                                  Jornais                                 Tribunal

O Lar das Crianças                   Parlamento

          Caixas                         Comissão Legislativa

               de                                       e Senado

            cartas

Mural                                                   Comitês

                                   Apostas               Plebiscitos

A atualidade da proposta de Korczak

.Exigências da nova economia: pessoas de iniciativa, auto-

 disciplinadas, criativas e inovadoras.

.Flexibilização da legislação: possibilidade de grupos não

 seriados, com avaliação contínua e currículo organizado em

 torno de temas.

.Projetos fora da escola para jovens em risco no Brasil: 

 ambientes inovadores em que os jovens desenvolvem todo

 seu potencial.

.209 escolas democráticas no mundo todo: França, Grã-

 Bretanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca (cooperativa de

 pais), Noruega, Áustria, Alemanha, Ucrânia, Hungria,

 Rússia, Canadá. EUA, Equador, Guatemala, Colômbia,

 Israel (públicas), Nova Zelândia, Austrália, Zaire, Índia

 (sindicatos de crianças trabalhadoras), Ja

Desenvolvimento : Dexter's