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Biografia

Biografia de Janusz Korczak
por Helena Singer

Trecho selecionado de: LEWOWICKI, Tadeusz; SINGER, Helena; MURAHOVSCHI, Jayme. Janusz Korczak. São Paulo : Edusp, 1998

Henryk Goldszhmit nasceu em 1878, filho de judeus ricos, liberais e assimilados à cultura polonesa. Seu pai era um advogado reconhecido e sua mãe já vinha de uma família progressista. Henryk tinha uma irmã, Anne.

Avesso à disciplina escolar, Henryk passou a infância e a adolescência resistindo às regras institucionais da escola russa em que estudava e devorando obras da literatura universal. Como resultado, acabou por fundar um círculo de "Livre Pensamento", com seus amigos, cujas discussões giravam sobretudo ao redor do socialismo e do nacionalismo.

Sonhava ser escritor, mas pela insistência de seu pai, inscreveu-se no curso de medicina da Universidade de Varsóvia. No mesmo ano em que ingressava no nível superior, seu pai veio a falecer, depois de um longo período atormentado por uma doença mental, que consumiu todas as economias da família. Henryk dava aulas particulares para ajudar a mãe e acalentava o desejo de tornar-se escritor participando de concursos literários. Em 1899, ele conseguiu obter uma menção honrosa com um drama assinado com o pseudônimo de Janusz Korczak, herói de um romance histórico polonês daquele século.

No verão de 1901, Korczak partiu em viagem para Zurique, a fim de aprofundar seus estudos sobre a obra de Johan Heinrich Pestalozzi, educador suíço da passagem do século XVIII para o XIX. Pestalozzi atuou na trilha aberta por Rousseau, mas distinguiu-se dele por seu filantropismo e sua praticidade, adquirida nas quatro instituições que dirigiu na Suiça, entre 1798 e 1825, sempre voltadas para as populações carentes. O interesse de Korczak pelas crianças carentes e pelos fundamentos da educação já estava delimitado tendo ele, naquele mesmo ano de 1901, publicado um artigo intitulado “As crianças de rua” e, no ano anterior, publicado um ciclo de sete artigos denominado “Crianças e educação”.

Em Zurique, Korczak conheceu Stefa Wilczinska, filha de uma família judia aristocrática de Varsóvia, que estudava pedagogia. Influenciado por ela, começou a freqüentar a faculdade de pedagogia. Ali entrou em contato com as obras dos pensadores da Escola Nova, que estava muito em voga por toda a Europa naqueles tempos. Um dos pioneiros desse movimento foi  o escritor russo Leon Tolstoi, muito admirado por Korczak, que dirigiu a Escola Yásnaia-Polïana, na Rússia, entre 1857 e 1860.  Ali, Tolstoi colocava em prática, com os filhos dos camponeses, várias das propostas de Rousseau, que indicavam uma linha mais livre para o aprendizado, em que o educador acompanharia o educando em sua trilha de conhecimento, levado sobretudo por sua própria curiosidade. A escola de Tolstoi foi fechada pelo czar mas depois disso, sobretudo a partir da década de 80, várias experiências alternativas à escola tradicional foram realizadas em diversas partes dos Estados Unidos e da Europa, como a Grã-Bretanha, Munique, Alemanha e Espanha. Na Polônia mesmo, desde 1896, funcionava a Sociedade Polonesa para o Estudo da Criança.

O que definia fundamentalmente o movimento era a descoberta da psicologia infantil e a crítica à escola tradicional, que aos poucos ia saindo das mãos da Igreja. Apelava-se para a psicologia contra o "adultismo", que fazia com que as crianças fossem tratadas como adultos pequenos, sem nenhum interesse pela especificidade desse período da vida humana. Esta perspectiva ganhou impulso fundamental com a publicação dos trabalhos de Sigmund Freud e John Dewey a partir de 1900. Mas, assim como Tolstoi foi impedido de continuar com sua escola, as experiências mais inovadoras sempre foram podadas. Marco dessa censura foi a execução, em 1909 de Francisco Ferrer, fundador da “Escola Moderna”, em Barcelona. No ano seguinte (ano da morte de Tolstoi), seria inaugurada uma escola com seu nome em Zurique, também fechada, em 1919.

Antes de voltar a Varsóvia, Korczak fez uma especialização em pediatria em Berlim, para depois assumir um posto em Hospital Pediátrico em sua cidade e concluir seus estudos em medicina. Depois disso, em 1908, ele partiu em busca de estágios de pediatria em Paris, Londres e Suíça. Nesta época, conseguiu publicar alguns artigos em que critica a escola tradicional e seu primeiro romance, A criança do salão, que lhe rendem fama e respeito como médico, educador e escritor.  O trabalho como educador em uma colônia de férias para crianças judias e em outra para crianças católica lhe forneceu um novo terreno de observações, sistematizadas em Joski, Moski e Srule (prenomes judeus) e Jozki, Jaski e Franki (prenomes poloneses), lançados em 1910 e 1911, respectivamente.

Ainda em 1911, Korczak deixou o Hospital e foi trabalhar no orfanato criado por Stefa em Varsóvia, depois de concluídos seus estudos de pedagogia. A instituição funcionava em duas salas, em Varsóvia. Ali, Stefa instalou um lar para crianças pobres e convidou Korczak para trabalhar como médico. Korczak transformou gradualmente o orfanato em uma República de Crianças, organizada sobre os princípios da justiça, fraternidade, igualdade de direitos e obrigações. Korczak viajara para Suiça, Itália, Holanda e Dinamarca a fim de conhecer os orfanatos destes países, voltando muito decepcionado com o procedimento rotineiro e a construção dessas instituições que, a seu ver, assemelhavam-se a prisões. Por isso, Korczak e Stefa decidiram projetar eles mesmos o ambiente do orfanato.

Em  15 de abril de 1912, o orfanato Lar das Crianças foi inaugurado, em uma rua habitada por judeus pobres de Varsóvia (Polônia), a Rua Krochalna. O público alvo deste orfanato eram as crianças judias carentes e os fundos do empreendimento foram conseguidos junto aos judeus ricos do país. No entanto, com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Korczak foi convocado para para os serviços de pediatria de dois hospitais e a inspeção de três orfanatos em Kiev. Durante quatro anos, Stefa dirigiu sozinha o estabelecimento.

Ao regressar, Korczak reassumiu suas funções no Lar e, tornando-se nacionalmente conhecido, acabou sendo convidado pelo Marechal Pilsudski - que durante vinte anos dirigiu os destinos da Polônia - a auxiliar na direção de outro orfanato em Prushkov. Na mesma época, foi também convidado para dirigir uma edição para crianças - e coordenada por elas - de um conhecido periódico (La Petite Revue ligada a Notre Revue), e contar estórias infantis em uma rádio. A coordenação da Petite Revue, na qual as crianças eram inteiramente responsáveis pela edição, Korczak manteve até 1930 e a participação no rádio tornou-se uma permanente na vida do educador, já que em 1934 ele iniciou um programa de aconselhamentos do “Velho Doutor” a pais. Parte desses conselhos foi publicada em Pedagogie avec humour, de 1939.

Korczak desenvolveu todas essas atividades paralelamente ao Lar, além de escrever vários outros livros, em que se destacam Como amar uma criança (primeira sistematização de sua concepção pedagógica, de 1919), O Rei Mathias 1º e O Rei Mathias em uma ilha deserta (livros infantis de 1923), Quando eu voltar a ser criança (1925), O Direito da criança ao respeito e Como amar uma criança (ambos de 1929) - estes três últimos também sobre seus ideais para a  educação. O direito da criança ao respeito foi a base adotada pela ONU, trinta anos depois, para a formulação da declaração dos direitos das crianças, como parâmetro de atuação mundial para a infância. “(...) o primeiro passo em direção à emancipação da criança [é] pela elaboração e proclamação de uma Declaração dos direitos da criança. A criança tem o direito de exigir que seus problemas sejam considerados com imparcialidade e seriedade. Até o presente, tudo dependia da boa ou má vontade do educador, de seu humor no dia. É tempo de por a termo o despotismo” (KORCZAK apud SEMENOWICZ & PRÉVOST, 1981: 26). 

A época era de efervescência cultural, propiciada pelo fim da Guerra, com destaque para as experiências inovadoras em educação. A vanguarda deste movimento estava na Alemanha, onde instalava-se a República de Weimar (1919-1933), período profundamente marcado pelo desejo da transformação e do novo. No campo específico da educação, a esquerda havia chegado a um consenso de que era preciso reformar o ensino no sentido de fazer com que ele deixasse de perpetuar as divisões sociais. Mas havia várias especificidades nas propostas para se atingir esse fim. Data desse período a Escola Internacional, fundada em Dresden em 1921, por Alexander Sutherland Neill, sobre princípios muito semelhantes aos que Korczak aplicava no Lar das Crianças. No entanto, com problemas com as autoridades alemãs, a Escola Internacional foi levada para a Áustria em 1923 e, finalmente, para a Inglaterra em 1926, onde permanece funcionando até hoje com o nome de Summerhill.

Mas a crise econômica deflagrada em 1929 e o fortalecimento das ideologias nacionalistas e totalitárias foram aos poucos destruindo ideais revolucionários. O recrudescimento do anti-semitismo em toda a Europa tornou cada vez mais difícil a situação para os judeus, sobretudo na Polônia. Primeiramente, os estudantes judeus foram expulsos das universidades e muitos jovens começaram a emigrar para Israel. Em 1936, Korczak, despedido da rádio por ser judeu, viajou para lá e, muito bem impressionado com os kibutzim (propriedades agrícolas coletivas), pensou em mudar seu orfanato para aquele país. No entanto, a invasão nazista na Polônia, que causou a eclosão da II Guerra Mundial, no dia 01 de setembro de 1939, impediu a realização dos planos de Korczak, que foi trabalhar em um hospital militar, abandonando suas funções no Lar das Crianças. Ao mesmo tempo que aumentava a penúria para os judeus da Polônia, disseminavam-se também os progronim (atentados populares contra os descendentes dessa religião), impedindo que Korczak sequer levasse suas crianças para passeios fora da cidade.

Em 1940, o orfanato - que já havia sobrevivido a dois progronim - perdeu o comitê que o sustentava. Em 1942, a Gestapo ordenou sua transferência para uma casa pequena e suja, no gueto de Varsóvia. Ali Korczak usou toda sua energia, talento e influência para conseguir alimentos e medicamentos necessários para a sobrevivência das crianças. Devido a seu prestígio, o educador obteve propostas de escapar do gueto, mas recusou-as, preferindo ficar com suas crianças. O relato desse período foi registrado em Memórias, escrito entre maio e agosto pelo educador, no gueto. No dia 10 de agosto de 1942, Korczak foi a frente delas, caminhando como numa procissão, para os trens que os levariam para as câmaras de gás.

 

 

 

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