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Boletim
Boletim nº 5

A que serve a Associação Janusz Korczak do Brasil?

Formar Especialistas no atendimento integral à Criança e ao Adolescente carentes/ em situação de risco, via Cursos de Aperfeiçoamento, Atualização, Extensão Universitária, de Multiplicação e Seminários, numa perspectiva correta de soluções;

Aplicar a praxes pedagógica/educacional de Janusz Korczak em instituições, Creches, Abrigos, Centros de Juventude, Escolas, em especial de população marginalizada, com iniciação profissional pertinente;

Difundir a obra de Janusz Korczak, via atendimento/acompanhamento contínuo e continuado a Educadores (Diretores, Coordenadores, Supervisores, Professores), Psicólogos, Crianças e Adolescentes, interessados em geral, preparo e tradução de livros sobre e de Janusz Korczak, edição de Boletins, ampliação do voluntariado, expansão em Núcleos pelo Brasil, promoções especiais (exposições, teatro).

Ressalta-se:

Uma obra não se constrói só com prédios, bibliotecas...: é o Homem que humaniza a ação. Formar/aperfeiçoar “gente” para a ação: este é o propósito fundamental da Associação Janusz Korczak do Brasil.

O Boletim nr. 5 traz:

.Leon Feffer: in memoriam, p.3

.Moacir Gadotti na VI Conferência Internacional Janusz Korczak em Tel Aviv, p.4

.”Mês Janusz Korczak” – 50º. Aniversário da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, p.6

.Marcos Faerman: in memoriam, p.8

.Jayme Murahovschi e “O Bom Doutor”, p.9

.Presidente da Associação Janusz Korczak da Holanda visita São Paulo, p.12

.Serviços, p.12

Ele é endereçado a Educadores, estudantes, pais, público em geral, interessados em conhecer a prática korczakiana para melhorar sua relação educacional com alunos, filhos, pessoas.

O Boletim é um dos meios para atendimentos a esse interesse ampliando, pois, o conhecimento sobre a vida e obra de Janusz Korczak.

O Editor

Associação Janusz Korczak do Brasil

Diretoria Executiva (1998-2000)

Presidente: Anita Novinsky

Vice-Presidente: Rachel Gevertz

Secretária: Tereza Cristina Pereira de Almeida

Tesoureiro: Maurício Novinsky

Assessor Especial: Henrique Rattner

Conselho Deliberativo

  • José Knoplich – Presidente
  • Tatiana Belinky – Vice-Presidente
  • Anatol N. Wladyslaw
  • Antonieta Bergamo
  • Antonio Henrique Cunha Bueno
  • Arnold Diesendruck
  • Beno Milnitzky
  • Dalmo de Abreu Dallari
  • David Paves
  • Edy Cunha Bueno
  • Fanny Rozentraub
  • Flávio Bitelman
  • Francisco Gotthilf
  • Henrique Rattner
  • Jayme Pasmanik
  • José Augusto Dias
  • José Meiches
  • José Mindlin
  • Luzer Goldbaum
  • Miguel Legher
  • Nachman Falbel
  • Paulina Pistrak Nemirovski
  • Ricardo Gouveia
  • Samuel Pfromm Neto
  • Conselho Consultivo
  • Anita Novinsky
  • Fanny Abramovich
  • Henry L. Sobel
  • Izidoro Blikstein
  • Jayme Murahovschi
  • Moacir Gadotti
  • Oded Grajew
  • Oscar Nimitz
  • Rubem Alves
  • Salomão Becker
  • Vicente Marotta Rangel
  • Conselho Fiscal
  • Idel Aronis
  • Marcos Kertzmann
  • Uron Mandel

Comissões:

Administrativa

  • Issstván Jancsó
  • Rachel Gevertz
  • Rita Davidovich Schubsky

Campanha de Sócios/ Relações Públicas

  • Emilia Schwartz
  • Eva Steinbruch
  • Lina Gorenstein Ferreira da Silva
  • Rachel Mizrahi, Roberto Loeb

Divulgação

  • Francisco Gotthiilf
  • Liane Gottlieb
  • Oscar Nimitz

Educação

  • David Aron Blinder, Fábia Leipziger
  • Ilana Novinsky, Márcio Kramer
  • Maria Antonia Cruz Costa Magalhães
  • Paulina Burd,
  • Rachel Gevertz
  • Sílvio Hotimsky
  • Zilda Márcia Gricoli Iokoi

Financeira

  • Mauricio Novinsky
  • Ulrico Strengher

Jurídica / de Orientação Institucional

  • Dora Sílvia Cunha Bueno
  • José Vasconcellos de Almeida Prado
  • Marcos Kertzmann

Marketing

  • Antonio Sílvio Lefèvre

Publicações

  • Eduardo Alves da Costa
  • José Augusto Dias
  • José Carlos Sebe Bom Meihy
  • Roney Cytrynowicz

Relações Internacionais

  • Anatol N. Wladislaw
  • Anita Novinsky
  • Décio Zilbersztajn
  • Rachel Gevertz

In Memoriam

Este Boletim é dedicado à memória de Leon Feffer, Sócio Número Um da Associação Janusz Korczak do Brasil

O evento “Mês Janusz Korczak”, dedicado às comemorações do 50º. Aniversário da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, realizado no Centro Universitário Maria Antônia da Universidade de São Paulo, em outubro de 1998, recebeu o apoio de Leon Feffer e teve a honra  de sua presença.

A lembrança de sua figura inesquecível e do amigo leal, continuarão o estímulo para a Associação Janusz Korczak do Brasil prosseguir seu trabalho em prol dos Direitos da Criança.

Moacir Gadotti na VI Conferência Internacional Janusz Korczak em Tel Aviv

Vitalidade do pensamento de Korczak

Impressões de uma viagem cultural a Israel

A Associação Janusz Korczak existe no Brasil desde 1984 com atividades  no campo da educação, da cultura e da assistência social, preocupada com a formação do educador popular e com o atendimento à criança pobre. O Instituto Paulo Freire e a Universidade de São Paulo vêm dando apoio à Associação Janusz Korczak do Brasil, principalmente através de parcerias em cursos e conferências.

Entre os dias 15 e 17 de dezembro de 1998, realizou-se em Israel a VI Conferência Internacional Janusz Korczak e fiquei muito honrado com a indicação do meu nome para representar a Associação Janusz Korczak do Brasil. Seguem aqui alguns comentários sobre a minha participação nesta Conferência que foi, para mim, um momento importante não só para aprender mais sobre Janusz Korczak, mas também para conhecer melhor o povo e o Estado de Israel que estava visitando pela primeira vez.

O evento teve lugar no noroeste de Israel, no kibutz Loamei Haghetaot onde está localizada a “Casa dos Combatentes do Ghetto” (Ghetto Fighters House), um conjunto de museus, monumentos e anfiteatros muito visitados e onde se realizam estudos, pesquisas e cursos, especialmente sobre o Holocausto e a resistência judaica. Fundada em 1949 por sobreviventes do Holocausto, ela se localiza na rodovia costeira norte do mar Mediterrâneo, acima de Haifa, entre Acra e Nahariya. Ao lado deste kibutz, que contem também residências para hóspedes, está o Museu das Crianças (Yad Layeled), memorial e centro educativo inaugurado em 1995, que  representa o dia-a-dia das crianças durante o Holocausto. Construído na forma de um caracol, a exposição de fotos, filmes, textos, maquetes, etc.., apoia-se sobretudo em documentos escritos pelas próprias crianças. Nele, história, emoção e razão se misturam artisticamente. É um museu educativo sob todos os aspectos.

O tema geral da Conferência foi “O direito à dignidade e o dever do respeito” no mês em que se comemoraram os 50 anos de Declaração dos Direitos Humanos (12 de dezembro de 1948) e a 39 anos da ratificação, pela Assembléia Geral da ONU, da “Declaração dos Direitos da Criança” (20 de novembro de 1959). A partir deste tema discutiu-se não só a obra de Korczak, mas outros assuntos relacionados com a sua obra, como: respeito ao outro; diálogo multicultural entre árabes e judeus; direitos e deveres dos educadores; respeito entre professores e alunos. Cerca de 200 educadores de várias partes do mundo, principalmente do leste europeu e em particular da Polônia, participaram da Conferência. Estavam presentes também movimentos de jovens, representantes do governo e dos meios de comunicação.

Em até 8 salas simultâneas foram apresentados dezenas de estudos, projetos, experiências, em painéis muito ricos, em três línguas oficiais: hebraico, polonês e inglês. Não podendo freqüentar mais do que uma sala por vez, escolhi, com um grupo bastante heterogêneo, a sala 3 que tratou, no primeiro dia, de manhã, do “diálogo respeitoso entre professores e alunos” e, de tarde, da “autonomia dos alunos”, temas muito próximos do legado de Korczak. Neste aspecto ficou evidente a coerência existente entre a teoria de Korczak, portanto, a sua pedagogia e sua metodologia, e a sua prática vivida. Por outro lado, neste dia também foi ressaltado o altruísmo e a coexistência pacífica entre árabes e judeus, sobretudo no nível  das comunidades, do povo. Korczak fez duas visitas a Israel nos anos 30. Foram analisadas as impressões de Korczak sobre a realidade da Palestina dos anos 30,  quando se pensava ainda na criação de um “Estado binacional” como também queira Martin Buber e a realidade da existência do Israel de hoje.

No segundo dia, de manhã, apresentei meu trabalho que consistiu inicialmente de uma breve exposição sobre as atividades da Associação Janusz Korczak do brasil e de um texto sobre Korczak como “precursor dos direitos da criança”. Fiz minha apresentação através de transparências e de um vídeo em português que fui interpretando em inglês simultaneamente. O recurso aos meios áudio-visuais foi muito elogiado pois a quase totalidade dos expositores apresentou suas idéias lendo um texto ou falando. A apresentação da Associação Janusz Korczak do Brasil feita no vídeo, com depoimentos de personalidades como Dalmo Dallari e Oded Grajew, mostrando as atividades com crianças de rua, atraiu muito a atenção dos participantes que, logo após a exposição, vieram falar comigo para obter mais detalhes. Gostaram muito também do vídeo na parte que entrelaça a realidade brasileira com as cenas tiradas do filme “As 200 crianças de Korczak” de Andrej Wajda. Ficaram interessados em continuar mantendo o contato.

Na minha fala fiz referências à existência de alguns pontos em comum entre Freire e Korczak. Hélène Lecalot, presidente de honra da Associação Francesa Janusz Korczak, concordando comigo, informou sobre um Seminário realizado em Paris, em 1998, promovido pela Associação Francesa, à semelhança do curso oferecido em São Paulo no mesmo ano, promovido pela Associação Janusz Korczak e pelo Instituto Paulo Freire. Nesta manhã  ainda comunitário Daniel Halperin falou das “lembranças que os adultos têm da sua infância”, referindo-se ao livro de Korczak.

“Quando eu voltar a ser criança”. No período da tarde foi a vez do uso da arte como instrumento educacional. Melanie Haris, da Rádio BBC de Manchester apresentou sua experiência. “Colocando no ar  Janusz Korczak”, um interessante programa de rádio que repete, na forma de “comercial”, frases de Korczak entre os  programas da BBC.

No terceiro dia, pela manhã, o tema da sala 3 foi “o respeito para com os outros”, ressaltando os encontros multiculturais no  espírito do legado de Korczak, onde foram discutidos os conceitos de paz, humanismo e democracia. Neste painel foi muito aplaudida a intervenção de Adellle Chabelski, de Los Angeles (USA), que apresentou uma “Perspectiva global do respeito para com os outros”. Com a sua larga experiência no campo dos direitos humanos, ela fez impressionantes relatos de “holocaustos” atuais como o que  trucidou mais de um milhão de pessoas na guerra cifil de Ruanda  opondo as etnias hutu e  tursi. Neste dia ainda, no painel sobre os “direitos e deveres dos educadores” Giuliana Limiti, da Itália, defendeu a necessidade de se criar uma espécie e “Juramento dos educadores de educação infantil”, com base na filosofia de Korczak, à semelhança do “Juramento do educador” de Comenius. O tema foi muito discutido e se chegou  à conclusão de que um “código de princípios” do educador infantil poderia ser m importante instrumento para a própria formação do educador no que se refere aos direitos e deveres dos educadores face à criança.

Passando rapidamente por outros painéis pude assistir à exposição do trabalho do professor da Universidade de Varsóvia,  Wieslaw Theiss “O passado comum judaico-polonês na perspectiva da pesquisa  intercultural”. Ele é também autor do livro Zniewolone Dziecinstwo sobre a situação da infância na Polônia, em três momentos: sob o domínio nazista (1940-1945), durante o período soviético (1945-11956) e durante o período do “Solidariedade” (1980-1984). Seria muito interessante que tivéssemos este livro traduzido em português (talvez com o apoio da UNICEF). Queria destacar também a importante participação do suíço Jean-Batiste de Weck, ex-diretor da UNESCO.

É claro, num sucinto relato como este, só posso fazer alguns destaques. M as o encontro foi rico e muito exaustivo (houve dias com 8 atividades seguidas), com conferências, visitas e encontros. Tivemos uma exposição sobre a educação em Israel do ex-ministro da educação  Aharon Yadlin. Eliezer Marcus, presidente da Associação Janusz Korczak de Israel, Benjamin Anolik, Secretário Executivo da mesma Associação e Jerys Kuberski, presidente da Associação Internacional Janusz Korczak, coordenaram as principais atividades da Conferência. Quero destacar a dedicação, a simplicidade e a simpatia destes três entusiastas estudiosos da obra de Korczak. Eles se mostraram o temo todo muito antenciosos, respondendo aos nossos freqüentes pedidos de esclarecimento tanto sobre a Associação quanto sobre Israel e sobre o desenrolar da Conferência.

Janusz Korczak, um dos mais importantes educadores deste século, foi considerado também como um dos mais poderosos símbolos das atrocidades do  Holocausto. Um monumento memorial a Korczak faz parte hoje do “Yad Vashem”, em Jerusalém, um conjunto  de prédios, parques, museus e monumentos que recebe em torno de 2 milhões de visitantes por ano. Yad Vashem é um verdadeiro memorial do povo judeu e do  Estado de Israel. Os participantes estrangeiros da Conferência iniciaram sua jornada com uma visita a este local  precedida de uma conferência de Safira  Rapoport, diretora do Centro Pedagógico de Yad Vashem. Fiquei particularmente emocionado com o memorial às crianças assassinadas durante o Holocausto: o visitante passa por um subterrâneo com uma câmara escura pela  qual se desce em espiral ouvindo os nomes e a idade das crianças mortas, na completa escuridão, vendo-se por todos os lados, milhões de estrelas através de jogo de espelhos e pequenas lâmpadas. Os organizadores da Conferência nos  possibilitaram também uma história visita aos chamados “lugares santos”, em Jerusalém (Monte das Oliveiras, Muro das Lamentações, Via crucis) e na  Galiléia (Nazaré, com sua famosa igreja da Natividade e Cafarnaum, ao lado do local do “Sermão da Montanha”). Pelas raízes judaico-cristãs da nossa cultura, todos esses lugares nos enchem de emoção e de espiritualidade.

Assistimos a uma cerimônia judaico-cristã numa comunidade chamada “NesAmmim”, numa vila cristã ecumênica que é também um centro de estudos para o desenvolvimento do respeito mútuo, a tolerância e a compreensão entre os homens, situada na Galiléia ocidental, cercada de vilas árabes e judaicas e reunindo diversas civilizações.

Em resumo, nesta viagem cultural a Israel, participando ativamente da  VI Conferência Internacional Janusz Korczak, posso dizer que fiquei  convencido quanto à vitalidade do movimento korczakiano no mundo, demonstrado também pelo elevado nível dos conferencistas. A presença do seu pensamento está  tanto no leste europeu quanto no ocidente. Apenas para destacar esse ponto, gostaria de fazer menção a uma edição crítica das obras completas de Janusz Korczak, com 21 volumes que está sendo publicada em polônes, sob a coordenação de A. Lewin, de Varsóvia. Com base nesta edição completa aparecerá uma outra em alemão, com 16 volumes, sob a coordenação de dois conhecidos korczakianos, os professores E.Dauzenroth e F.Beiner. Parece-me que agora, o desafio maior é incentivar os jovens cuja presença foi pequena na Conferência Internacional a ler a estudar Korczak e, sobretudo, seguir o seu exemplo de educador profundamente comprometido com a dignidade do ser humano e o respeito à criança.

Moacir Gadotti, Professor Titular da Universidade de São Paulo e Diretor do Instituto Paulo Freire

Mês Janusz Korczak

“Como amar uma criança”

A Comissão de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo, criada pelo Magnífico Reitor, Prof. Dr. Jacques Marcovich, dedicou o mês de Outubro de 1998 a Janusz Korczak. Coordenado pela Prof. Dra. Anita Novinsky, presidente da Associação Janusz Korczak do Brasil (AJKB) e membro da Comissão de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo e pela Prof. Rachel Gevertz, vice-presidente da AJKB, realizou-se no Centro Universitário Maria Antônia da Universidade de São Paulo em extenso programa que compreendeu três vertentes:

1.Curso – Paulo Freire e Janusz Korczak – Jornadas de Educação

Curso intensivo sobre a prática educacional de Janusz Korczak e Paulo Freire, dois educadores voltados para os excluídos, visando através da educação, transformá-los em cidadão conscientes e participantes. O objetivo do Curso foi trazer a mensagem de Paulo Freire e Janusz Korczak para um público mais amplo e aprofundar os conhecimentos de professores e educadores.

Estiveram à frente do Curso professores do Instituto Paulo Freire e da Associação Janusz Korczak do Brasil, sob a coordenação dos professores Moacir Gadotti (IPF) e Rachel Gevertz (AJKB), compreendendo a carga de 30 horas de atividades. O Curso teve 124 participantes, membros representativos da USP, PUC-SP, das Secretarias de Educação do Estado e do Município (Diretores) Coordenadores, Supervisores e Professores), da FEBEM, do CIAM e de outras instituições dedicadas à criança e adolescente em situação de risco. Foi enorme o interesse despertado pelo Curso com solicitações para que a AJKKB continue oferecendo “Jornadas de Educação”. Cumpre destacar a continuidade deste trabalho, nessas instituições, por Equipes de Estudo.

2.Publicação

A Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP) lançou o livro “Janusz Korczak” que compreende três partes: “Perfil de Janusz Korczak” de Thadeusz Lewowick, “Licões de Janusz Korczak” de Helena Singer e “Janusz Korczak- O Bom Doutor” de Jayme Murahovschi.

3.Exposição

O “Mês Janusz Korczak” contou ainda com uma exposição didática “Janusz Korczak revisitado” sobre a vida e obra de Janusz Korczak.

Apoios

O “Mês Janusz Korczak” contou com o apoio da Universidade de São Paulo através do seu Magnífico Reitor Prof. Dr. Jacques Marcovich, da Presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP Prof. Dra. Maria Luiza Marcílio e também da Sociedade Israelita de São Paulo.

À Sra. Vera Bobrow, então presidente da FISESP, ao Sr. Csarlos Eduardo Calfat Salem (Ação Criança), ao Arq. Roberto Loeb que criou o magnífico poster, a Anatol Wladislaw,a Ivo Minkovicius e ao Centro Voluntáriado de São Paulo, devemos o inestimável estímulo e apoio que nos deram.

Alunos da EEPG Prof. João Cruz Costa no “Mês Janusz Korczak”

Crianças da nossa Escola Laboratório – EEPG “Professor João Cruz Costa” participaram de uma das sessões do “Mês Janusz Korczak”. Perguntas mais perguntas dos participantes sobre sua vida, seus desejos/ aspirações, sobre a Escola....

Foram calorosamente aplaudidos pelos Educadores que destacaram a espontaneidade, a inteligência, a dignidade/postura dessas crianças.

Elas também retrucaram com perguntas aos participantes.....

Marcos Faerman, de saudosa memória e Krochmalna, 92

Marcos se apaixonou pela figura de Korczak, que não conhecia, e preparou para a revista “Educação” seu último trabalho “Krochmalna, 92”. Ele dizia  “Korczak – professor que morreu em nome do amor e da infância”.

Marcos discutiu muitas vezes o tema  com membros da AJKB, (Gadotti, Rattner, Rachel), visitou nossa Escola, conversou com as crianças, diretores, professores e funcionários. Encantou-se com o que viu e ouviu.

Prometeu um Curso de Redação para os Professores e muitos, muitos bate-papos com as crianças. Emocionou-se às lagrimas quando um dos pequenos, puxando-o pelas mãos, disse: “Quero ser como o senhor quando eu crescer”. Infelizmente não houve tempo para fazer o que pretendia.

Obrigado, Marcos, pelo que fez, pela semente que plantou.

Procure a revista “Educação” para este artigo e muitos outros.

Educação – Ano 25 nr. 213, janeiro de 1999

Uma breve apreciação sobre Janusz Korczak – Médico pediatra

Esta análise é baseada no livro “Como Amar uma Criança” de Janusz Korczak (Paz e Terra, 3 ed., 1983). Citações e conceitos são acompanhados do número da página em que se encontra nesse livro.

Pediatra Janusz Korczak: “O Bom Doutor”

Jayme Murahovschi

Texto originalmente publicado na revista Pediatria Moderna, vol XXX, nr. 7, dez 1994

Extraído de “Janusz Korczak: Perfil, Lições., “O Bom Doutor” – EDUSP –AJKB – 1998

J. Muahovschi é Professor Titular de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas de Santos, SP

Na complexa personalidade de JK e na sua vida tão ativa, a prática médica, como pediatra, não parece Ter sido a principal. Não que ele não tenha sido importante ou não lhe tenha merecido a devida atenção. Ao contrário, sua preparação foi cuidadosa e incluiu os dois pólos da Pediatria mais avançada da época: Berlim, com a medicina alemã, sistemática e organizada na construção de um sólido edifício de conhecimentos, e Paris, com a Pediatria francesa e seu espírito inquiridor e irriquieto. A Pediatria alemã com sua simplificação, engenho e ordem nos mínimos detalhes, representando a boa prática do momento e a Pediatria francesa, a pesquisa de novos conhecimentos para o futuro. “O hospital de Berlim e a literatura médica alemã ensinaram-me a exercitar meu pensamento sobre o que já sabemos; Paris ensinou-me a fazer perguntas sobre o que ainda não sabemos” (p.228).

A esse preparo, do melhor nível de excelência possível na época, seguiu-se uma intensa atividade hospitalar em sua terra durante oito anos. Sua integração na classe médica era tão completa que sua saída do hospital, trocando-o pelo internato de crianças, foi considerada pelos colegas como abandono e até traição (p. 227).

Traição que JK nega (p. 227) e com toda razão. Porque, na verdade, ele queria conhecer a criança não apenas na situação um tanto artificial das emergências hospitalares, mas através da observação clínica cotidiana. “Conhece-se a criança não durante uma doença grave, mas observando-a nos seus bons momentos” (p. 228)

Se JK distinguiu-se entre os educadores da sua época e de todos os tempos é porque, além de sua inteligência, espírito pesquisador e mente aberta, ainda aliava três condições que dificilmente se reúnem numa mesma pessoa: (1) idealismo mais que profissionalismo; (2) amor verdadeiro à criança, assim como ela é na realidade e não com uma visão idealizada, piegas ou sentimental (p. 166); (3) conhecimentos e prática de Pediatria.

“O educador não deve ser abaixar até a criança, mas elevar-se a ela e ao seu modo de ver e compreender  as coisas.”

Como educador, JK empregou a disciplina do raciocínio científico, desenvolvido graças à Medicina (p. 228). Foi como médico que ele aprendeu a interligar os detalhes esparsos e sintomas contraditórios, para construir o quadro lógico que é o diagnóstico. Esse exercício foi utilizado para levantar a ponta do véu de um mistério que ainda hoje não foi totalmente desvendado a criança (p. 229).

Com seu embasamento médico-científico, JK podia ver claramente as falhas freqüentemente gritantes da pedagogia de sua época, falhas estas que deviam, em grande parte, a uma indevida queima de etapas: ao contrário da Medicina, que passou por uma longa fase de observação minuciosa do doente e só depois colocou suas esperanças nos laboratórios de pesquisa, a pedagogia pulou a etapa fundamental de  observação para passar diretamente aos trabalhos de laboratório (p. 232).

JK não deixou de ser médico quando abraçou a nova carreira de educador, mas realizou  uma simbiose tão original quanto rara, transformando-se num médico-educador, trabalhando num internato de crianças (p. 233). E foi nessa condição que ele efetuou as pesquisas que incluíam curvas ponderais, perfil de crescimento, prognóstico de evolução psicossomática (p. 235), etc...

A atividade e os conceitos pediátricos de JK refletem sua personalidade como um todo. De um lado, a atividade e os conceitos são influenciados pelos conhecimentos científicos da época, o que se justifica como maneira de evitar uma alienação esterilizante. Por outro, eles são aceitos como reservas, com espírito crítico e com a certeza  de que esses conhecimentos, além de incompletos (pp. 143 e 144), são mutáveis. Tudo isso temperado com a convicção de que a ciência progredirá rápida e continuamente.

“Não desejo mal a ninguém. Fazer o mal? Nem sei como isto se faz (JK).”

Vale a pena destacar alguns de seus conceitos, expressos há quase 90 anos, e fazer breves comentários, comparando-os com o que se pensa e o que se sabe hoje.

1.Controle de natalidade – “A natalidade ilimitada é um mal” (p. 35). Após dezenas de anos de incompreensão, preconceito e hipocrisia, o planejamento familiar passa a ser adotado de modo unânime por países ricos e populações pobres como medida fundamental para que os povos possam aspirar a uma situação de maior bem-estar.

2.A relação mãe do recém-nascido com o pediatra. Reflete a insegurança e a desconfiança da nova mãe e sua decepção ao verificar que o pediatra não é um super-homem, capaz de magicamente tirar suas dúvidas e resolver todos os seus problemas (pp. 36-41). Até hoje,  arte desse relacionamento está em conseguir o equilíbrio entre a ajuda real que o pediatra pode prestar e as expectativas fora da realidade da mãe.

3.A importância da hereditariedade. Na época, a influência da hereditariedade, determinando a constituição do indivíduo, atingia o máximo como conhecimento científico contemporâneo e JK não se furtava a essa influência (p.162). Além disso, sua própria experiência valorizava o temperamento inato da criança (ativo, passivo) (p. 150).

Mas a influência do meio não pode ser desprezada. (“Criança é nervosa porque é filha de pais nervosos ou porque é educada por eles?”, pg. 85). O fator biológico inerente aos seres vivos é imutável (“um carvalho é sempre um carvalho”), do mesmo modo que as características básicas do espírito (“posso acordar o que está dormindo em sua a alma, mas não posso criar outra”, p. 220).

No final das contas, as personalidade da criança vai resultar de um “temperamento” e “da somatória de suas experiências existenciais” (ambiente) (p.54). JK analisa a importância do “meio educativo” (p.86), mas admite que “todo método educativo tem seus limites”(p.266).

E como estamos hoje? A antiga pendência “hereditariedades vs. Influência ambiental” continua a preocupar e nunca foi completamente resolvida. Mas a moderna Medicina tende a adotar, o paradigma holístico, em que são igualmente valorizados e integrados fatores biológicos comuns a todos os indivíduos da mesma espécie, a variação hereditária desses fatores, o temperamento (constitucional), as experiências vividas e o reforço que elas recebem (influência ambiental) e a fase do desenvolvimento na dependência da maturação do sistema nervoso central. É exatamente o que já advogava JK que, inclusive, já observara a individualidade do desenvolvimento neuropsicomotor (p.65), que  contribui para que nenhuma criança seja igual a outra (p.80) e já lançava as bases para uma medicina psicossomática, ao relacionar alterações psíquicas e problemas de saúde com as diversas fases e momentos do crescimento (pp. 40, 146, 231), além de distúrbios psíquicos tendo por base doenças somáticas (p. 82).

4.A importância da imunização e da imunidade. Algumas doenças infecciosas relativamente banais, embora desconfortáveis e repetidas, poderiam no futuro aumentar a resistência do organismo (p. 57) (o que hoje chamaríamos de “experiência imunológica”). Por outro lado, é impressionante a lucidez de JK, quando explica o aparecimento de uma doença grave numa criança aparentemente sadia: enfraquecimento passageiro de seu organismo, criando um terreno propício “ao desenvolvimento da doença, que esperava este momento de menor resistência, escondida no fundo de seu organismo ou vinda do exterior” (p. 92).

Os melhores imunologistas não teriam que mudar uma vírgula.

5.Amamentação

a)   “A amamentação é um prolongamento da gravidez” (p. 46).

Hoje se diz que a gravidez (entendida como a ligação biológica mãe-filho) não é de 9 meses, mas sim de 18: sendo 9 meses de vida intra-uterina, pelo cordão umbilical, e 9 meses de vida extrauterina, com o leite materno.

b)”O leite materno é o sangue branco” (p. 47).

Absolutamente atual, refere-se aos fatores protetores existentes no leite humano, de fundamental importância para o bebê, cujos mecanismos de defesa ainda estão imaturos.

c)”Luta encarniçada pelo direito da criança à amamentação” (p.47), hoje em dia o problema essencial é o alojamento conjunto.

Absolutamente atual.

d) Juízo ético: a “ama-de-leite da mulher rica pode ser comparada com o uso da prostituta pelo homem” (p.46).

e)”Toda mão pode amamentar, cada uma dispõe da quantidade necessária de leite; somente a ignorância da técnica da amamentação pode privá-la desta faculdade” (p. 46).

Essa frase poderia estar, e na verdade está, nos modernos manuais sobre amamentação patrocinados pela OMS e toca nos pontos nevrálgicos: toda mulher normal tem leite e pode amamentar, desde que esteja disposta, confiante e tenha bons professores, que lhe ensinem a técnica da amamentação (a qual depende de um aprendizado por parte da mãe e do recém-nascido).

f) “O bico rachado dificulta a amamentação, mas este problema pode ser superado” (p. 46). O “bico rachado”, cuja causa é a técnica inadequada (o bebê suga apenas o bico e não a aréola), é ainda hoje um dos principais motivos do desmame precoce, mas pode ser prevenido e tratado.

g) Detalhes técnicos: A amamentação em horários rígidos, de três em três horas, era recomendada pela pericultura do começo deste século: JK se insurge contra essa  regra e diz que a mãe deve resolver quais são as melhores horas para ela e para a criança: do mesmo modo, o tempo de mamada é elástico e depende de cada criança (p.48). Isto está de acordo com o conceito atual de “livre demanda” e “horário livre”.

h) “A mãe deve retirar o leite que sobre depois da mamada, no caso de um bebê frágil, que não consegue esvaziar a mama”. Hoje recomendamos exatamente o mesmo, pois o esvaziamento da mama é importante para manter a produção do leite e esse mesmo leite pode ser dado ao bebê frágil ou prematuro, como complemento, em colherinha ou xícara.

i)JK defende a pesada do bebê antes e depois de cada mamada. A justificativa é comprovar se a criança recebeu leite suficiente (p. 49).

Hoje consideramos este método não recomendado, embora alguns poucos serviços pediátricos o utilizem, em circunstâncias especiais. A quantidade de leite é avaliada pela satisfação do bebê, pelo número de micções (fraldas encharcadas) e pela curva ponderal. Aliás, JK faz a ressalva de que a balança é um conselheiro, mas pode transformar-se num tirano, se nos ativermos a ela para nos fornecer um esquema de crescimento “normal” e alerta contra as “curvas ideais” de crescimento (p. 49).

Agora, voltamos a estar todos completamente de acordo. A balança, como instrumento das “curvas de crescimento”, constitui hoje uma das ações básicas de saúde preconizadas pela OMS: não existe, no entanto, uma única curva ideal de crescimento para todas as crianças, as quais devem seguir o “seu” canal de crescimento, cujo desvio pode ser um sinal de alerta para a instalação da desnutrição.

6.Quando e com o que suplementar a alimentação da criança (corresponde à alimentação de desmame). Não há regra fixa, tudo fica em função da crianças, de acordo com o que ela peça, desde o momento em que a quantidade de leite que mama no peito não seja mais suficiente para seu crescimento além de leite, ovos e carne, os cereais, legumes e frutas, de acordo com a aceitação da criança” (p. 50).

É preciso acrescentar algo?

7.Quanto deve comer uma criança?

“A criança deve comer de acordo com seu desenvolvimento” (p. 93); “a regra é dar, para a criança comer, nem mais nem menos do que ela queira comer” (p. 94).

“Hoje ela não come; passa-se um ano: ela  devora comida” (p. 231)

“Mesmo quando uma doença nos obriga a colocar a criança sob uma dieta alimentar diferente, não obteremos nenhum resultado sem sua participação” (p. 94).

São conceitos atualíssimos e que constituem a base da nutrição e da higiene mental no setor alimentação.

8.A importância de evitar a onipotência do pediatra e aceitar a impressão da mãe, única capaz de perceber pequenos sinais de mudança no comportamento da criança, prenunciadores de doenças graves; valorizar a observação e intuição maternas (pp. 42,44). Continuam valendo mais do que muitos exames laboratoriais sofisticados.

9.Advertência contra o “comércio de saúde” (p.50), “os abusos farmacêuticos e escroquerias ortopédicas” (p.231).

“Interessado na venda de seus produtos, o fabricante se esforçará em despertar a dúvida quanto à amamentação materna” (p.51) e a desilusão contra a submissão e intrigas no meio universitário (p.51).

Isto levou JK ao divórcio

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