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Boletim nº 4

Boletim nr. 4 – 1997

O interesse pela vida e obra de Januís Korczak faz com que a AJKB busque diversos meios para ampliar este conhecimento: o Boletim é um deles.

Este sentido, o Boletim nr. 4 traz um compreensivo trabalho do Prof.  Dr. Moacir Gadotti sobre Korczak, como precursor dos Direitos da Criança e um depoimento do Prof. Dr. Henrique Rattner sobre a atuação da AJKB em sua escola – laboratório – EEEPG “Prof. João Cruz Costa”.

O Boletim é endereçado a professores, educadores, estudantes, pais, público em geral, interessados em conhecer a prática korczakiana para melhorar sua relação educacional com alunos, filhos e pessoas.

Korczak, precursor dos direitos da criança

Moacir Gadotti (FE – USP)

“A lei cruel mas franca da Grécia e da Roma antigas autorizou a matar uma criança. Na Idade Média os pescadores achavam em suas redes cadáveres de bebês afogados nos rios. Na Paris do século XVII vendiam-se crianças pequenas a  mendigos e sobre o adro da Nôtre Dame se livravam dos pequeninos por nada. E isto não faz tanto tempo. Ainda hoje são abandonados quando são demais. O número de crianças ilegítimas, abandonadas, negligenciadas, exploradas, depravadas, maltratadas, aumenta dia-a-dia. De certo, elas são protegidas pela lei, mas suficientemente?”

(Januís Korczak, Direito da criança ao respeito. P. 46)

Meu primeiro encontro com a obra de Januís Korczak (18878-1942), pseudônimo de Henryk Goldszmit, pediatra e educador polonês, deu-se no início dos anos orienta, motivado pela crítica que alguns pedagogos faziam à  amorosidade na educação. Diziam, ironicamente, que “Quem sabe, ensina, e quem não sabe, ama”. Defendendo uma posição contrária a esse desvio tecnicista, fui buscar argumentos na história da educação. Foi quando entrei em contato mais de perto com a obra de Korczak que valorizava o papel de afetividade na educação e na construção do conhecimento.

Já havia lido o livro Como amar uma criança (Paz e Terra, 1983) quando estava escrevendo um depoimento sobre o amor entre pais e filhos que acabou sendo publicado com o título Dialética do amor paterno (Cortez, 1985). Desde então busquei conhecer melhor esse grande educador, identificando-me sobretudo com o seu compromisso com a criança de rua e a sua proposta de autogestão pedagógica.

Continuei lendo suas obras, buscando situá-lo no contexto do pensamento pedagógico contemporêneo. Fiquei surpreso, porque, apesar de uma enorme e importante obra, sua pedagogia não havia merecido grande destaque nos livros de história da educação. Sem dúvida, isso se deve à própria originalidade da sua obra, não se filiando a  nenhuma corrente do pensamento pedagógico. Por outro lado, ele era um educador inteiramente dedicado à prática e talvez muito pouco dessa prática tenha sido realmente escrito.

Na verdade sua obra é uma permanente reflexão sobre a prática, apoiando-se muito pouco em outros  educadores, embora sinta-se que ele acompanhava o debate da época, entre a escola tradicional e a escola nova. Curioso é ver como ele cita mais a poetas do que a educadores. Ele evitou as polêmicas acadêmicas da sua época, procurando observar primeiro a realidade concreta. Nisso ele tem certa comunhão com o pensamento de Paulo Freire. No livro “Como amar uma criança”,  ele descreve questões concretas  como a amamentação, o crescimento dos dentes, os primeiros passos, a recusa a comer, a imitação do adulto, a brincadeira, o choro etc..., enfim, o cotidiano da criança e o cansaço do educador, a paulatina quebra do seu entusiasmo, as contradições, a insatisfação, a rejeição, o fracasso do educador etc.., numa linguagem simples e direta. Essa dialética do cotidiano, que é o essencial da educação, muitas vezes é  esquecido por trás das grandes teorias pedagógicas. Korczak condenava o academicismo, a teoria educacional sem prática. Não via sentido algum em elaborar uma excelente teoria educacional que não pudesse ser aplicada. Esse estreito vínculo entre teoria e prática dá a seus textos uma força particular, causa do maior sucesso de sua obra entre educadores e menor entre os intelectuais da educação.

A realidade é sempre mais viva  do que a teoria.

Sua obra é um desenrolar permanente do exemplos concretos da vida das crianças, observações e análises. A vida da criança não e nenhum mar de rosas. Ele descreve seus medos, sua insegurança, dores, tristezas, sua desatenção, impaciência,  e o menosprezo dos adultos. Tudo isso ele relatou, em particular, no seu livro. Quando eu voltar a ser criança, uma espécie de diário íntimo da sua própria infância. Eis algumas passagens  significativas.

“Acabou o primeiro dia da minha nova infância. Quanta coisa em um só dia! Só registrei algumas das experiências, aquelas que a lembrança por acaso me passou, aquelas que levaram mais tempo. Se impressões caem em cima da gente que nem enxurrada de verão, como guardar e descrever todas as gotas da chuva? É possível, por acaso, contar as ondas agitadas de um rio que está transbordando? (p.53).

“Vocês pensam, quem sabe, que nós também batemos um no outro. Mas nossas mãos são pequenas e nossa força é pouca. E mesmo tendo a maior raiva, nunca batemos de modo tão sangüinolento. Vocês não sabem como são as nossas brigas” (p.77).

“Acordei, triste.

Estar triste não é ruim. A tristeza é  um sentimento suave e agradável. Bons pensamentos nos vêm à cabeça. Sentimos pena de todo mundo: de mamãe, porque as traças estragaram o seu vestido, de papai porque precisa trabalhar, da avó, porque está velha e não demorará a morrer, do cachorrinho, porque está com frio e da florzinha, porque suas folhas ficaram flácidas e ela parece doente. Queremos ajudar a todos, e queremos nós mesmos tornar-nos melhores.

Contos  de fadas tristes também nos agradam, o que indica  que temos necessidade de tristeza, como se ela fosse um anjo que pára, olha, põe a mão  na nossa cabeça, e parece estar respirando pelas asas.

Dá vontade de ficar sozinho, ou então de estar com alguém e conversar  sobre diversos assuntos.

Ficamos com medo de que alguém  venha estragar a nossa tristeza, estragar, não; espantar” (p.85)

“O que me magoa é que todos os nossos assuntos são liquidados às pressas e de qualquer maneira, como se para os adultos a nossa vida, as nossas preocupações e insucessos não passassem de acréscimo aos problemas verdadeiros que eles têm.

É como se existissem duas vidas; a deles, seria e digna de respeito; e a nossa, que e como se fosse de brincadeira. Somos menores e mais fracos; daí, tudo que nos diz respeito parece um jogo. Por isso o pouco caso.

As crianças são os homens do futuro. Quer dizer que elas existirão um dia, mas por enquanto é como se ainda não existissem. Ora, nós existimos: estamos vivos, sentimos, sofremos.

Nossos anos de infância são anos  de uma vida verdadeira.

Por que nos mandam aguardar, e o quê?

E eles, os adultos, será que se preparam para a velhice? Não desperdiçam levianamente as suas forças? Gostam, acaso, de ouvir as advertências de velhos ranzinzas?

Na cinzenta monotonia da minha  vida de adulto, lembrei-me das vivas cores dos anos da infância. Voltei  atrás, deixei  iludir-me pelas reminiscências. E eis que ingressei na cinzenta monotomia dos dias e das semanas de criança. Nada lucrei, mas perdi o tempo da resignação.

Estou triste. Sinto-me mal.

Estou terminando o meu estranho relato”(p.152).

Korczak é um pensador solitário, à margem das ideologias e correntes científicas da sua época. Não polemizava, preferindo escrever o que sentia e o que sentia era um profundo amor pelas crianças, assunto de toda a sua paixão. Não escrevia apenas para difundir o seu pensamento. Escrevia por uma necessidade interior.

Ele não escreveu nenhum tratado pedagógico. Não seguia modelos. Seu livros são o retrato de um saber feito de experiência e observação. Nisso está sua enorme vantagem sobre os tratados teóricos. Não se apoiava em autores de sua época para criar teorias novas porque não era a isso que queria consagrar sua vida. Mas não se pode dizer, contudo, que ele era contra a teoria. A teoria nele  estava presente como fundamento de sua ação prática, do seu ato pedagógico. Por exemplo, ele tinha uma profunda preocupação pelo fenômeno que Freud chamava de “transferência”.

Korczak é um pensador  solitário à margem das ideologias e correntes científicas da sua época. Não polemizava, preferindo escrever o que sentia e o que sentia era um profundo amor pelas crianças, assuntos de toda a sua paixão.

A criança vê no adulto mais próximo um modelo a ser imitado, copiando-o. Ela se identifica com ele, mesmo quando entra em conflito com ele. O educador pode tornar-se a figura que serão endereçados os desejos e interesses do educando, tranformando-se em objeto de transferência. Daí Korczak chamar a atenção para a grande responsabilidade do adulto em contato com crianças.

Ele fala para as mães e pais tentando unir o escolar e o não-escolar. Valoriza a família numa época em que ainda se pensava  em educar através de internatos.

A linguagem de Korczak é poética, literária, contrastando com o atual  tecnicismo. Cita mais poetas e romancistas do que pedagogos. Nisso ele reage a uma tendência da época, influenciada pelas recém descobertas “ciências da educação” que procuravam transformar o educador em “técnico em educação”, realçando um aspecto importante, a sua profissionalização, mas diminuindo outro, que o caracteriza como um profissional especial, um profissional do humano.

Ele não tem medo de dizer que ama a criança, confessa abertamente esse seu amor.

Korczak definia-se como um educador que amava as crianças. Mas dizia: não basta amá-las, é preciso respeitá-las, compreendê-las a partir do seu referencial e não em nome de um futuro hipotético que elas não compreendem ainda. Korczak estava preocupado com o fato de o adulto mentir muito para as crianças, mesmo quando mente em nome do amor que tem por elas.

Korczak vem de uma família com estigma da loucura, motivo pelo qual não quis se casar e ter filhos. Dedicou todo o seu afeto às crianças abandonadas. As Crianças da Rua foi seu primeiro livro, escrito em 1901.

Sem dúvida podemos afirmar que Januís Korczak é um precursor dos direitos da criança e do adolescente.

Vejamos uma passagem do seu livro Como amar uma criança, escrito entre 1914 e 1915:

“Faço um apelo à magna charta libertatis, ou seja, a carta magna dos direitos da criança.

1.O direito da criança à morte.

2.O direito da criança de viver sua vida de hoje.

3.O direito da criança a ser o que ela é.

É importante compreender bem o sentido desses direitos, a fim de permitir às crianças aprovitá-los, sem  cometer erros em demasia. Erros, haverá sempre, mas o que é preciso é Ter coragem para enfrentá-los; a criança saberá corrigi-los com a condição de não enfraquecermos nela essa preciosa faculdade que é o instinto de  autodefesa.

Nós lhe damos leite demais para beber ou um ovo que não está muito fresco para comer? Ela vomita. Nós lhe passamos uma informação que ultrapassa uma informação que ultrapassa o seu entendimento? Não compreende. Um conselho sem valor? Não o escuta. Não falo apenas por falar ao dizer que uma sorte para a humanidade não podermos obrigar as crianças a obedecer os médicos educativos que vão contra seu bom senso ou sua saudável vontade” (p.67).

Isso ele escreveu em 1915. Mais tarde, fez o seguinte comentário à margem, na edição de 1929. “Depois, estas idéias tendo-se cristalizado no meu espírito, penso que o primeiro e indiscutível direito da criança é aquele que lhe permite expressar livremente suas idéias e tomar parte ativa no debate concernente à apreciação da sua conduta e também na punição. Quando o respeito e a confiança que lhe devemos forem uma realidade, quando ela própria se tornar confiante, grande número de enigmas e de erros desaparecerão”.

Korczak defende com vigor o direito da criança ser ela mesma, viver o seu momento presente, seu momento feliz. Não pretende enganar  a criança, como faz a educação tradicional, prometendo a felicidade para amanhã, adiando a felicidade que ela  pode gozar hoje. A criança não pode ser considerada um projeto de homem  e o homem não é certamente um “animal racional”, como queriam Aristóteles e a escolástica. Essa definição de homem que considera a criança um pequeno animal, um ser “menor”, condicionou muitas pedagogias autoritárias. Daí ele afirmar  que o “primeiro e indiscutível direito da criança é aquele  que lhe permite expressar livremente suas idéias”, portanto, apreciar sua conduta e decidir sobre sua vida “em debate” com o adulto responsável por ela.

Sua paixão pela criança o levouà “retornar” à infância numa aventura sem precedentes na história da pedagogia. Foi assim que escreveu o livro. Quando eu voltar a ser criança. Como escreve Tatiana Belinky na apresentação da edição brasileira, “o livro,  que é uma espécie de ficção psicológica, está escrito na primeira pessoa, como o relato de um professor primário que, cansado dos seus problemas de mestre-escola e adulto, se lembra com saudade da decantada “aurora da minha vida” e magicamente volta à infância; volta a ser criança, mas sem perder a memória de adulto”. Nesse livro ele revive a sala de aula, a vida em família, as humilhações sentidas no contato com os adultos, os sustos diante de tantas coisas desconhecidas e de um ambiente feito para o tamanho dos adultos.

No livro Quando eu voltar a ser criança, Korczak diz que a criança é uma “classe oprimida”: “nós vivemos como um poro de pigmeus, subjugados por sacerdotes gigantes que detêm a força dos músculos e a ciência secreta. Somos uma classe oprimida que vocês desejam manter viva às custas do menor esforço e com o mínimo de sacrifício. Somos criaturas extremamente complexas, fechadas,, desconfiadas e camufladas; e nem a  bola de cristal nem o olho do sábio lhes dirão qualquer coisa a nosso respeito, se  vocês não tiverem confiança em nós e identificação conosco” (p. 83). Korczak chamava essas crianças de rua de “proletários de calças curtas” e se dizia decidido a se tornar o “Karl Marx das crianças”. Ele se tornou criança para poder, entendendo-as melhor, melhor defendê-las. Como poucos, penetrou nesse mundo impenetrável da infância para conhecer a fundo o que se passava no íntimo do  seu coração.

“O homem é produto do seu meio  e de seu tempo” escreve ele no prefácio para a Segunda edição do seu  livro Como amar uma criança, em  1929. Se, de um lado, Korczak é um precursor no que se refere aos direitos da criança e do adolescente, por outro lado, ele é também um homem  de sua época no que se refere à pedagogia da escola nova que defendia a educação para a formação do cidadão ativo e participante.

A defesa que fazia da autogestão pedagógica era, na prática, a defesa de uma educação que preparava para  a autogestão social. Korczak era um  homem preocupado com a questão social. Embora não se declarasse socialista, defendia teses do socialismo autogestionário. Planejava escrever a  biografia do escritor revolucionário russo, anarquista, Piotr Alekseievitch Kropotkin. Em sua época os educadores estavam mais preocupados com questões estritamente pedagógicas. A dimensão política da educação não  ocupava ainda muito espaço na discussão educacional.

No Orfanato que dirigia, todos os temas eram tratados com seriedade. Toda opinião era levada a sério. A vida não era fácil. Existiam também conflitos, brigas, pequenos roubos, mentiras, tapas. A pobreza extrema  em que muitos viviam era a causa  principal de muitas desavenças.

Diante dessa situação concreta Korczak propunha métodos novos: o “Parlamento” e o “Tribunal”, animados pelas próprias crianças, onde a  opinião dos alunos, professores, jovens e adultos, ele mesmo, enfim, todos, tinham o mesmo peso.

O “Tribunal” expunha a autoridade dele mesmo. Korczak acreditava que toda autoridade que não conseguia ser transparente, que não conseguia expor-se diante do grupo, tende a ser autoritária. Por isso  defendia a autogestão. Reconhecia que, em muitos campos, a criança e o adolescente, por sentirem de perto seus  problemas, poderiam, melhor do que  ele, vislumbrar também as soluções. Mais do que muitos educadores de  sua época, defendia a importância das  relações democráticas no processo educativo.

Todos esses métodos tinham um  sentido educativo: a autonomia infantil. Através desses métodos as crianças aprendiam não só a autogestão institucional, mas concretamente, podiam compreender a idéia de justiça, de respeito aos outros, de responsabilidade, bem como entender as normas da vida coletiva. Essas práticas eram idênticas às que os educadores soviéticos revolucionários da época, como Pistrak e Makarenko,  aplicavam na União Soviética. Como os educadores socialistas da época, Korczak não dicotomizava trabalho intelectual e trabalho manual.

O “Plebiscito”, com voto secreto, era também utilizado para decidir sobre questões de interesse coletivo como as férias, para conhecer as opiniões dos colegas, para saber quem  era o colega mais bem aceito ou o “hóspede indesejável” do grupo.

A autonomia infantil era praticada  à risca. Foram criadas caixas coletivas de poupança e empréstimo, uma espécie de banco, com criança gerente e todas as regras. “bancárias e, ao mesmo tempo um “centro de livros”, a biblioteca, que emprestava livros e revistas.

Tudo tinha um objetivo educacional. Por exemplo, uma criança mentia muito. O “Tribunal” aplicava uma  pena: o seu autor tinha que fazer uma aposta que durante uma semana ele só iria mentir três vezes. Se cumprisse a aposta era recompensado. Outra criança batia ou mordia muito seus  colegas: a aposta era que essa criança só teria direito a duas mordidas e três tapas na semana. Outro apostava que não faria mais caretas ou que não iria  mais dormir tarde. Com isso ia-se construindo, paulatinamente, novos  hábitos. Aposta ganha era recompensada com balas, entradas para o cinema, etc... E todos sabiam da punição e da recomprensa.

Seu autor assumia o “veredicto”. Tudo era feito publicamente, transparentemente, ao contrário das pedagogias religiosas da época em que o culpado se “confessava” secretamente diante de um  “guia espiritual”.

O direito da criança ao respeito era a regra fundamental. Por isso, Korczak  obtinha bons resultados das crianças que viviam “em situação de risco”, diríamos hoje. O direito da criança ao respeito se traduz por um profundo amor e confiança. “Transparência” e “confiança” são categorias pedagógicas profundamente atuais.

Tudo o que acontecia no Orfanato era divulgado em murais, listas, cartazes ou no Jornal O Semanário, órgão oficial do Orfanato. Korczak tinha como princípio que a democracia só se praticava quando havia transparência. E essa só existe quando há acesso de todos á informação. Acabava-se fazendo listas públicas de tudo: listas de quem ia passear ou ia ao cinema, listas para rezar, para se  queixar, para se arrepender, para trocar objetos, sem esquecer a lista dos “madrugadores”, os que acordavam  os demais. A democracia era exercida até nas mínimas coisas. Por exemplo,  o Parlamento estabelecia quantas vezes  na semana podia-se chegar atrasado ou dormir um pouco mais. Essas normas não eram criadas pelos adultos, mas pelas próprias crianças. Por isso elas eram observadas e praticadas com muito mais facilidade. Por que eram auto-assumidas. Essas normas não sufocavam ou oprimiam ninguém pois  eram aceitas através de um consenso conquistado no debate público.  

Korczak foi um dos primeiros educadores a entender a importância do rádio, do cinema e do teatro na formação dos jovens. Ele mesmo escreveu várias peças, entre elas, Rei Mateuzinho I, encenada no Brasil em 1987.

O orfanato da rua Krochmalna, 92, em Varsóvia, era semelhante à  Colônia Gorki dirigida por Makarenko, dedicado à reeducação.

Ambos, desenvolveram seus métodos a partir da prática concreta e de um imenso amor pelas crianças. Fizeram de sua obra um “poema pedagógico”, valorizando o trabalho coletivo, a autogestão, a disciplina e o companheirismo.

Ao mesmo tempo em que criticava o excesso de liberdade das crianças na pedagogia montessoriana, Korczak sofreu influência da pedagogia de Maria Montessori. Ao mesmo tempo em que criticava Froebel pelo excesso de autoridades e de condução das crianças,  ele valorizava a disciplina. Manteve sempre uma saudável e conflituosa relação entre liberdade e autoridade. Pode-se dizer que manteve-se equidistante de Maria Montesori e Froebel.

Há punições no Orfanato?

Sim, há punições, há sanções para as faltas cometidas. Mas as regras eram definidas coletivamente. Quem e julgado culpado é punido publicamente e acaba cuprindo a sua  “pena”. Mas não é algo inteiramente imposto de fora, como num tribunal  comum ou numa prisão. Trata-se de corrigir situações concretas, enfrentá-las por uma pedagogia que não escamoteia o conflito, mas o trabalha, o leva a sério como uma oportunidade  de avançar, de aprender, de melhorar, de ser mais feliz e construir a felicidade do conjunto das pessoas que  estão mais próximas. A punição só tem  valor educativo quando a pessoa que é punida toma consciência de suas faltas e assume as conseqüências dos  seus atos. Com isso ela aprende. A coerção só tem valor pedagógico quando se tornar auto-correção. A disciplina “hora de dormir”, “hora de comer”, “hora de brincar”, uniformes, tempo para férias, tempo de estudo) que pode ajudar muito na vida de um adulto, pode ser aprendida na infância. Para  uma criança ficar sentada durante um longo período é muito penoso, mas isso pode ajudar muito amanhã quando o adulto necessitar submeter-se, por exemplo, à disciplina intelectual para poder produzir uma tese.

Korczak tinha consciência de que a educação é um processo coletivo. Não é um ato individual. Hoje se fala  muito em Conselho de escola que é a tradução atual desses métodos criados pela pedagogia da escola nova. Hoje não se fala mais em “tribunais”, “parlamentos”, etc... Essas palavras já não são mais adequadas aos nossos tempos.  Mas o princípio pedagógico no qual  esses métodos se fundavam continua nos métodos atuais que defendem a autonomia da escola e a participação coletiva como na pedagogia institucional  de Michel Lobror.

Prisioneiro em sua própria casa, o Orfanato transferido para o Gueto de Varsóvia, Korczak continuava escrevendo:

“Reguei as flores, Pobres plantas do Orfanato! Plantas de um orfanato judeu. A terra queimada pelo sol  respirou.

A sentinela em serviço observou o meu trabalho. Será que ficou irritado de me vez zanzar nesta ocupação pacífica desde as seis da manhã?

Estava em pé com as pernas abertas e me olhava....

Rego as flores. A minha careça na janela que alvo bom?

Ele tem um fuzil. Por que fica assim, olhando tranqüilamente?

Não recebeu ordem.

Ele era talvez professor numa aldeia, ou tabelião, ou varredor de rua em Leipzig, garção de bar em Colônia?

Que é que ele faria se eu fizesse um pequeno sinal com a cabeça? Um gesto amigável com a mão?

Será que ele nem sabe o que está se passando?

Talvez ele tenha chegado ontem de muito longe” (Diário do Gueto, p. 132).

Essas foram as últimas páginas que escreveu em seu diário, antes de ser morto na câmara de gás nazista com as 200 crianças do Orfanato, em agosto de 1942.

Korczak, nessa passagem, revela tudo o que ele era: um homem bondoso, movido por profundo amor pela humanidade. Não desejava mal a ninguém. Não seria capaz de fazer mal a ninguém, nem a seus opressores.

O que me impressiona em Korczak  é que encontro nela aquela simplicidade, compromisso e coerência que, acima de qualquer categoria lógica,  definem um educador. Ele não precisou estruturar previamente nenhuma teoria abstrata para se dirigir à criança. Não se encontrava com elas  com esquemas prontos para moldá-las segundo algum modelo. Ao contrário, ao resgatar-lhes primeiro a identidade, aprendia a ser gente com elas. Numa época de fascínio pelo positivismo científico e pela uniformização da educação ele chamava a atenção para o respeito, o amor, a fala, o prazer,  a autogestão pedagógica, a espontaneidade que fazem o cotidiano da educação.

Sua obra é, por isso, muito atual. Ao mesmo tempo em que demonstra o quanto o amor é necessário, dialeticamente ele chama a atenção para os seus limites, o quanto ele é insuficiente. Chama a atenção para os direitos da criança, para o respeito, ao mesmo tempo em que demonstra a necessidade de tornar esse respeito ativo, procurando superar as condições que geral o desrespeito.

Como diria mais tarde Pasolini: “a solidariedade é um dever bem diferente da piedade. Agir, lutar é suportável”,. Esse poderia ter sido o lema  de Korczak.

Bibliografia

Abrahan, Bem

Januís Korczak (1878-1942): Coletânea de Pensamento São Paulo, Associação Januís Korczak do Brasil, 1986.

Dallari, Dalmo de Abreu e Janusz Korczak

O direito da criança ao respeito.

São Paulo, Summus, 1986

Korczak, Janusz

Quando eu voltar a ser criança

São Paulo, Summus, 1981

O direito da criança ao respeito.

São Paulo, Perspectiva, 1984

Como amar uma criança

Prefácio de Bruno Bettelheim, São Paulo, Paz e Terra, 1986

Wassertzug, Zalman

Janusz Korczak, Mestre e Mártir

Tradução de Bluma Sahm Paves

São Paulo, Distribuição Summus, 1983.

 

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