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Boletim nº 2

Boletim nr. 2 – Outubro 1992

EDUCANDO PARA A DEMOCRACIA
Henrique Rattner

Vivemos hoje em um mundo de paradoxos: de um lado, produção potencial e real de riqueza, integração e internacionalização dos mercados, expansão dos meios de comunicações e, de outro, crise e polarização entre  países, retorno ao obscurantismo,  “balcanização”, massacre de minorias étnicas, aprofundamento da miséria e da exclusão social. Assistimos, é verdade, ao fim da Guerra Fria, com o desmoronamento do Império Soviético, mas persistem ameaças concretas de conflitos regionais.

Neste contexto, a educação deve ser entendida como mecanismo para a formação de atitudes e valores que atuem como  instrumentos de mudança, para que as pessoas tenham uma participação ativa e tornem-se sujeitos conscientes da história.

Mas como alterar o curso dos acontecimentos, quanto a lógica dos “mercados”, atrás do qual se  esconde um modelo selvagem e perverso de "“crescimento"” que degrada os recursos materiais e humanos, parece impor-se a nível mundial, a ponto de se proclamar “o fim da história”?

A crise atual concentra cada vez mais o poder decisório em poucas instituições privadas e  públicas, que alienam e manipulam o indivíduo. Que legitimidade pode pleitear este sistema que descuida dos idosos,  que despreza  os aposentados e doentes, que discrimina

Os mais fracos, as minorias e, sobretudo, as crianças?

Vivemos o século do paradigma fordista, sistema de organização que reduz o homem a  mero apêndice, parafuso de uma imensa máquina, centralmente dirigida, burocratizada e desumana. Os economistas já estão apontando, no entanto, para um novo paradigma de organização, o SFF (Sistema de Fabricação Flexível), que exige  novas relações humanas, resgatendo velhas tradições humanistas, desde a Antiguidade Clássica até os filósofos da época da Luzes.

Nesta cadeia de precursores da humanidade e do homem emancipado é que se inserem a figura, a vida, a filosofia e obra de Janusz Korczak.. Sua educação enfatiza a participação, a responsabilidade, a solidariedade, a democracia e o exercício dos direitos e deveres da cidadania.

Apesar da adversidade de sua época Korczak conseguiu colocar a pedra fundamental para uma  nova aurora da humanidade.

Congresso América-92 tem mesa-redonda sobre o “método pioneiro” de Korczak     

A Associação Janusz Korcczak participou do Congresso América-92 e Trajetórias, realizado na Universidade de São Paulo, com uma mesa-redonda especialmente dedicada ao tema “Sistema Educacional de Janusz Korczak um método pioneiro”. O evento, inserido na programação Sefarad-92, que destacou assuntos ligados à presença judaica nas Américas, foi realizado no dia 18 de agosto de 1992 no Departamento de História da USP, com a participação dos profs. Drs. Henrique Rattner, Dalmo de Abreu Dallari, Rachel Gevertz e Moacir Gadotti. O texto do prof. Rattner, presidente da AJKB, está apresentado de forma resumida no artigo de primeira página deste boletim. O prof. Dallari falou sobre “Família, mulher e criança na América Latina”. A seguir, trechos dos depoimentos.

Depoimentos

Dalmo de Abreu Dallari

Na tradição da AMÉRICA Latina as mulhers e as crianças foram sempre excluídas da cidadania. Mantidas em plano inferior, as mulheres só recentemente começaram a ter acesso às mais altas posições nas esferas públicas e privada. Para muitos efeitos, continuam cidadãs de segunda classe.

As crianças, em número  elevadíssimo, são condenadas à  marginalização desde que nascem, não tendo acesso aos direitos mínimos exigidos pela dignidade humana. Isto quando sobrevivem à miséria e à fome e não são exterminadas por esquadrões da morte. Mulheres e crianças, marginalizadas da cidadania,  clamam pelo respeito aos seus  direitos humanos fundamentais.

Rachel Gevertz                   

Vivendo numa época na qual a “homorapx” se manifestava com a maior crueldade, Korczak tomou o partido da Criança o grupo humano mais vulnerável, sem defesa própria. Dedicou a maior parte de sua vida ao Orfanato que criou na Rua Krocmalna, 92, em Varsórvia. Foi seu diretor, médico era pediatra e professor-educador. Ajudou a manter a instituição com seus próprios recursos.

Não constituiu família própria: não quis fazê-lo. Foi pai e mãe para seus órfãos. Dedicou-se integralmente à missão: lutar pela criança, carente e abandonada em situação de risco.
Romântico e cientista, pesquisou incansavelmente o corpo e a mente a alma da criança.

Moacir Gadotti

Meu primeiro encontro com a obra de Janusz Korczak (1878-1942), pseudônimo de Henryk Goldschmid, pediatra e educador, deu-se no início dos anos oitenta, motivado pela crítica que alguns pedagogos faziam à amorosidade na educação. Diziam, ironicamente, que “quem sabe, ensina, e quem não sabe, ama”.

Defendendo uma posição contrária a este desvio tecnicista, fui buscar argumentos na história da educação. Foi quando entrei  em contato mais de perto com a obra de Korczak, que valorizava o papel da afetividade na educação e na construção do conhecimento. Identifiquei-me, sobretudo, com o seu compromisso com a criança  de rua e a sua proposta de auto-gestão pedagógica.

Projeto Casa da Criança já está em Andamento

Já está em fase de planejamento o projeto da “Casa da Criança e do Adolescente”, que será realizado pela Associação Janusz Korczak na cidade de Arujá, em São Paulo. O projeto é  do escritório de arquitetura Kogan Arquitetos Associados. O terreno de Arujá de 10.000 m2, foi doado por Michel Pusset e Margot Chitman, diretores da Borlem S/A Empreendimentos Industriais.

A Casa de Arujá deverá acolher, em uma primeira etapa, cerca de 40 crianças e adolescentes, na faixa de 7 a 14 anos, em situação de risco, que ficarão como internos, semi-internos ou externos. O objetivo da Associação é criar uma instituição seguindo o modelo mas com as devidas adaptações à realidade brasileira do Orfanato de Crianças mantido por Korczak em Varsóvia, na Polônia. Os elementos essenciais da filosofia educacional de Korczak são: educação comutária, autogestão e seus instrumentos (Parlamento, Tribunal, Código de comportamento), respeito à criança, auto-disciplina, liberdade de expressão, divisão de tarefas entre os internos, trabalho profinalizante, acomanhamento sistemático das crianças e colônias de férias.

A longo prazo, a meta é que esta experiência piloto sirva para criar progressivamente dez núcleos em diversas regiões do país, formando uma Rede Nacional de Núcleos – Casas da Criança e do Adolescente. A Casa de Arujá servirá também como núcleo inicial para treinamento de recursos humanos para atuar em outras instituições congêneres, de acordo com o Projeto Recursos Humanos da Associação Janusz Korczak.

Para contribuir na construção da Casa, A Associação iniciou uma campanha para arrecadação de fundos, a “Campanha do Tijolo”.

Ambos os projetos o da Casa da Criança e do Adolescente e o de Recursos Humanos, integram o Programa Ser Criança; Adolescente, que deverá se estender até 1993. Outros projetos em andamento são: Banco de Informações, Difusão, Acompanhamento e Pesquisa.

Registros

Nova diretoria

A AJKB realizou eleições gerais em abril de 1992, reelegendo para a presidência o prof. Henrique Battner, tendo como vice-presidente Rachel Gevertz, tesoureiro, Jaime Rozentraub e secretários, Roney Cytrynowicz. Os assessores da diretoria são: Bem Araham, Silvio Hotimsky e Josette Balsa e Antonieta Bergamo.

Divulgação

A Associação mantém ativo o Projeto Difusão, com envio de material para diversas instituições, entre elas a Febem, Ort Torá e Instituto Metodista de Ensino Superior. Já está em andamento, também, a realização de um vídeo institucional da AJKB, coordenado por Nina Korall, Paulo Santiago e Betina Korall.

Stanislaw Gora

Stamosçaw Gora faleceu em São Paulo, aos 76 anos, Gora era único ex-interno de Korczak que se estabeleceu no Brasil. O boletim nr.  da AJKB publicou um depoimento de Gora, “Eu fui seu aluno”, no qual ele conta que “no orfanato sentia-se protegido em seus direitos e estimulado para crescer com autonomia”.font>

Brasil participa de Congresso na Rússia

A Associação Janusz Korczak do Brasil, através de Szoel e Jacqueline Gasko, esteve presente no Congresso Internacional Janusz Korczak, realizado na Rússia entre 23 e 31 de julho de 1992.

Jacqueline e Szoel convidaram os participantes para o Congresso Internacional Janusz Korczk que deverá se realizar no Brasil em 1994. Na Rússia, as reuniões foram realizadas no Ministério da Educação da Rússia e na embaixada da Polônia  em Moscou.

A seguir, o depoimento de Szoel e Jacquelina: “Particparam dos trabalhos 47 reapresentantes estrangeiros: França (a maior delegação), Alemanha, Áustria,  Holanda, Polônia, Israel, Suiça, além de um número grande de estudantes russos, que nos recebiam onde fosse necessário e trabalhavam como tradutores para o inglês, francês e alemão. O local principal do Congresso foi a cidade histórica de Suzdalh, a 270 km de Moscou. As diversas  delegaões apresentara, trabalhos enfatizando os direitos da criança e a aplicação da filosofia educacional de Korczak.

“Apesar das dificuldades que existem na Rússia, formos recebidos de forma carinhosa e hospitaleira. Fora dos eventos e das palestras, houve um extraordinário clima de cultura e arte folclórica. Os principais  responsáveis pelo sucesso do Congresso foram Olga Mvdeveva, presidente, e Vjacheslav (Slava) Poggrebensky”.

Atividades

Encontro na UNIBES

A Associação iniciou um trabalho junto à União Brasileira Israelita do Bem-Estar Social, UNIBES, para divulgar a pedagogia de Korczak. Durante quatro dias nos meses de agosto e  setembro de 1992, Fany Rozentraub, Rachel Gevertz e Silvio Hotimsky fizeram palestras para a equipe técnica e diretores da  UNIBES. Este encontro tem  como objetivo iniciar um plano de ação junto ao Depto. de Recreação da UNIBES, que  cuida de cerca de 200 crianças, em regime de semi-internato.

Seminários na USP

A AJKB realizou entre 25 e 29 de novembro de 1991 a primeira etapa do seminário “Quando eu voltar a ser criança”. A segunda fase, de conclusão, foi realizada entre os dias 6 e 10 de abril de 1992.

O seminário, coordenado pelos profs. Rachel Gevertz e Moacir Gadotti, foi realizado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. O objetivo dos seminários é a formação de educadores que atuam na área da criança e do adolescente em situação de risco.

Korczak em português

Os títulos disponíveis de Janusz Korczak em português são: Quando eu voltar a ser criança, editora Summus; Como amar uma criança, Paz e Terra; O direito da criança ao respeito e Diário do Gueto, ambos da Perspectiva.

 

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